Jesus - a Simples Verdade

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Cultivando uma Cultura Missionária numa Igreja Pequena



Tom Ascol

Tom Ascol é o pastor da Grace Baptist Chruch em Cape Coral, na Flórida e Diretor Executivo do Ministérios Founders, nos EUA.

Pastor, você já pensou consigo mesmo: “Minha igreja é tão pequena, não podemos fazer muita coisa por missões, principalmente por missões no estrangeiro”?

Caso sua resposta seja positiva, tenho uma novidade para você. As igrejas pequenas não estão isentas do trabalho missionário, nem deveriam desejar estar.

Minha igreja, Grace Baptist (Batista da Graça), não possui todos os recursos que geralmente estão associados às igrejas que investem em missões com intensidade. Mas, pela graça de Deus, eis a maneira pela qual nos tornamos cada vez mais comprometidos com o avanço da causa de Cristo ao redor do mundo:

1) Pregação Expositiva É lógico que as Escrituras estão repletas de instruções para os crentes, bem como para as igrejas, acerca do plano de Deus e de nossa responsabilidade de espalhar as boas-novas da salvação em Cristo até os confins da terra. À medida que nossa igreja enxergou essa responsabilidade, repetidas vezes, por meio do estudo expositivo das Escrituras, partimos do consentimento teórico para um compromisso prático e zeloso.

2) Oração Intencional Depois, nossa igreja começou a orar de forma fervorosa “ao Senhor da seara”, para que mandasse “trabalhadores para a sua seara” (Lc 10.2). Começamos a orar dessa maneira nas orações feitas pelos pastores durante nossos encontros de adoração, em nossas reuniões regulares de oração e nas reuniões de pequenos grupos. Deus respondeu àquelas orações, chamando alguns de nossos membros mais fiéis e talentosos para dedicarem-se& a alguns dos povos menos alcançados do mundo.

3) Estudos voltados para missões Dois livros foram muito úteis na peregrinação de nossa igreja rumo ao envolvimento prático em missões. O primeiro foi o livro de Patrick Johnstones, Operação Mundial (este livro foi chamado anteriormente de Batalha Mundial: guia para intercessão pelas nações). Durante mais de uma década, incorporamos em nossos avisos semanais e reuniões de pastores, informações estatísticas e espirituais, extraídas desse livro, a respeito das nações. Isso sensibilizou os membros de nossa igreja em relação aos povos e lugares, que de outra forma, teríamos ignorado. E também, uma das melhores coisas que fizemos foi utilizar o livro de John Piper, Let the Nations be Glad (Alegrem-se os Povos – Cultura Cristã) nos estudos para adultos, em nossa escola dominical. A visão da glória de Deus sendo magnificada pela alegria dos povos ainda não alcançados cativou muitos de nossos membros. Ele continua sendo o livro favorito da igreja.

4) Relações Pessoais Finalmente, nossos esforços missionários começaram praticamente por meio de encontros providenciais e relações pessoais. Um missionário batista do sul, que havia acabado de voltar de um período de quatro de anos no Afeganistão, visitou nossa igreja e trouxe-nos notícias de primeira mão, as quais causaram um impacto duradouro em nossa igreja: prisioneiros que morreram de fome porque seus companheiros não tinham recursos para alimentá-los; crentes que se converteram do Islã e eram mortos ou simplesmente desapareciam; e assim por diante. Esse relacionamento pessoal nos levou a adotar um grupo de pessoas de um povo não alcançado, na Ásia central, o qual aquele missionário desejava atingir. Começamos a aprender sobre eles, a orar por eles e a empregar recursos para ajudar a alcançá-los com o evangelho. Finalmente, Deus nos levou a enviar um de nossos diáconos e sua família para se unir ao trabalho de tempo integral daqueles que já estavam trabalhando naquele país. Uma vez que alguns de nossos próprios membros estavam vivendo em meio ao nosso grupo de pessoas não alcançadas, nosso interesse pela obra do evangelho naquela parte do mundo aumentou consideravelmente. Nossas orações tornaram-se mais pessoais e fervorosas. Nossas ofertas passaram a ser mais significativas e sacrificiais E nosso regozijo ficou ainda mais profundo e agradável quando, pela graça de Deus,& uma igreja finalmente foi estabelecida entre os novos convertidos daquele grupo de pessoas. Ao longo dos anos, enviamos quatro missionários (três famílias e um adulto solteiro) para viver em lugares desagradáveis, a fim de tornar Cristo conhecido. Adotamos um outro grupo de muçulmanos não alcançados, na Ásia central, e temos nos alegrado com o nascimento de uma nova igreja.

Uma Cultura Missionária Por meio da pregação expositiva, da oração e de estudos especiais, Deus tem cultivado uma “cultura missionária” em nossa igreja. Além daquilo que já mencionei, temos várias atividades específicas para promover essa cultura:

  • Agendamos visitas com missionários confiáveis regularmente, para que nos falem acerca de seu trabalho. Tentamos encorajá-los e damos-lhes ofertas, principalmente bons livros.

  • Procuramos conhecer missionários (às vezes, perguntando sobre eles a crentes com discernimento), anunciamos suas necessidades e oramos sistematicamente por eles.

  • Cedemos espaço, em nossas dependências, para mapas e murais de atividades missionárias.

  • Lembramos das datas especiais e do aniversário dos missionários, e lhes enviamos mensagens atenciosas e ofertas.

  • Recrutamos membros da igreja para se corresponderem com os missionários.

  • Encorajamos os membros da igreja a ler bons livros missionários, incluindo biografias.

  • Treinamos e enviamos membros da igreja em viagens de curto prazo, para auxiliar os obreiros que estão no estrangeiro com projetos especiais ou simplesmente para servi-los e encorajá-los. Deus tem usado as viagens curtas para confirmar o seu chamado na vida de cada um dos missionários que temos enviado.

  • Trabalhamos para aumentar a quantidade de dinheiro que a igreja destina para missões.


Nenhuma dessas coisas parece ser muito importante por si só. Mas, de modo coletivo, elas podem encorajar a igreja a desenvolver uma perspectiva global acerca do avanço do evangelho. E não somente isso, elas são o tipo de coisa que toda igreja pode fazer, independentemente de seu tamanho ou recursos. Uma igreja com esse tipo de atmosfera pode tornar-se um solo fértil para cultivar a próxima geração de missionários internacionais.
Fonte:Editora Fiel
Jesus A Simples Verdade

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Fidelidade na Evangelização



Gilson Santos

“A palavra do Senhor, porém, permanece eternamente. Ora, esta é a palavra que vos foi evangelizada.” (1 Pe 1.25). Não há outra entrada para o céu, exceto a estreita passagem do novo nascimento; sem santidade, ninguém jamais verá a Deus (Hb 12.14). Deus uniu a fé e o arrependimento para serem as duas facetas de nossa resposta ao chamado do Salvador, deixando bem claro que vir a Cristo é abandonar o pecado e renegar a impiedade. .Se falharmos em manter unidas estas coisas que Deus juntou, nosso cristianismo será distorcido.. A fé salvadora, o arrependimento, o compromisso e a obediência são todas operações divinas, realizadas pelo Espírito Santo no coração daquele que é salvo. Não há obras humanas no ato da salvação. A salvação vem unicamente pela graça, mediante a fé (Ef 2.8). Sola Gratia e Sola Fide são dois dos pilares da Reforma. Entretanto, a verdadeira salvação não pode nem deixará de produzir obras de justiça na vida do verdadeiro crente. A obra de Deus na salvação inclui uma mudança de intenção, vontade, desejos e atitudes que produz inevitavelmente o fruto do Espírito.

Por que existem atualmente igrejas tão fracas? Por que tantas conversões são anunciadas e tantos membros arrolados às igrejas, e estas têm causado cada vez menos impacto sobre a sociedade? Por que não se pode distinguir muitos crentes dos incrédulos? Não é porque muitos chamam de crentes pessoas que na verdade não são regeneradas? Não será que muitos estão tomando .forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder. (2 Tm 3.5)?

Nem todo aquele que afirma ser crente o é na verdade. Jesus declarou em solenes palavras: .Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. (Mt 7.21). Incrédulos fazem falsas profissões de fé em Cristo, e aqueles que não são crentes verdadeiros podem iludir-se, pensando que estão salvos. O diabo tem produzido muitas imitações de conversão, enganando as pessoas, ora com isto, ora com aquilo. Ele possui tamanha habilidade e astúcia que, se possível, enganaria os próprios eleitos.

Este fato teria sido considerado como ponto pacífico, há algumas décadas; hoje, não mais. O barateamento da graça e a fé fácil em um evangelho distorcido estão arruinando a pureza da igreja. O abrandamento da mensagem do Novo Testamento trouxe consigo um inclusivismo putrefato que, com efeito, vê qualquer tipo de resposta positiva a Jesus como um equivalente para a fé salvadora. Os crentes de hoje estão dispostos a aceitar qualquer coisa, que não seja a rejeição aberta, como a autêntica fé em Cristo. O evangelicalismo moderno desenvolveu um território largo e notável, que abriga até aqueles cuja doutrina é suspeita ou cujo comportamento denuncia corações rebeldes contra as coisas de Deus.

O evangelho que Jesus pregou não fomentava esse tipo de credulidade. Desde o início de seu ministério público, nosso Senhor evitou adesões rápidas, fáceis ou superficiais. Sua mensagem resultou em mais rejeição do que em aceitação entre os seus ouvintes, pois recusava-se a proclamar palavras que dessem a qualquer pessoa uma falsa esperança. Suas palavras, voltadas sempre para as necessidades do indivíduo, nunca deixaram de fazer murchar a autojustiça dos que O procuravam, ou de pôr à mostra segundas intenções, ou de alertar quanto a uma fé falsa ou a um compromisso superficial.

Nas décadas recentes, tem surgido uma geração de cristãos professos cujo comportamento raramente se distingue da rebeldia em que vive o não-regenerado. Um desdobramento do Congresso Internacional de Evangelização Mundial (realizado em 1974, em Lausanne, Suíça) já apontava para esta realidade:

Da parcela de aproximadamente um bilhão de pessoas que compõe a população cristã do mundo, sabe-se que muitos ainda precisam ser evangelizados. São os .cristãos nominais., que não se comprometeram com Jesus Cristo e não Lhe reconhecem as reivindicações sobre suas vidas...

Talvez haja centenas de milhões de cristãos nominais entre os protestantes de todo o mundo. É impossível obter dados precisos... Ao examinarmos a nossa tarefa, duas coisas se tornaram claras. Primeiro, estamos tratando de uma importante tarefa na evangelização do mundo. Segundo, estamos sendo desafiados pelo nosso próprio incipiente nominalismo e compelidos a examinar o nível de nosso próprio compromisso cristão.

Este relatório demonstrava que nem tudo estava bem nas igrejas e denominações evangélicas. Por trás das fachadas dos brilhantes relatórios de crescimento e das estatísticas impressionantes, existia uma convicção de que a igreja carecia de poder em seu evangelismo. Ao mesmo tempo, nunca existiram tantas novas igrejas, tantas campanhas evangelísticas e tantos crentes estudando para o trabalho de evangelismo pessoal. Nunca se realizou tantas conferências e seminários em uma tentativa de exame sério das causas e curas no ministério do evangelho. Organizações denominacionais e interdenominacionais também se lançavam em campanhas procurando transcender as barreiras das denominações em esforços evangelísticos. A verdade, porém, é que estes esforços limitavamse também por outras barreiras:

Tendo aceito a teoria de que unidade é uma máxima para o evangelismo em larga escala, tanto a igreja quanto o indivíduo são forçados a rebaixar o seu conceito do valor da verdade. Não podendo insistir em verdades bíblicas que venham a ofender outro irmão evangélico, temos de procurar o menor denominador comum a todos os crentes. Rotula-se, então, o resto da Bíblia como .não essencial. à evangelização, pois, afinal de contas, estima-se que a unidade entre os crentes é mais importante do que a exatidão doutrinária.

As sociedades interdenominacionais nunca param a fim de perguntar: .O que é na realidade o evangelho de Cristo?.; isto poderia trazer respostas incômodas, que feririam a outros; poderia condenar a maior parte de suas próprias mensagens e metodologia e trazer à baila uma gama de opiniões diferentes. Adotar a posição de uma igreja significaria perder o apoio de cinco outras, e então todo o sistema construído sobre a premissa de unidade desmoronaria.

A igreja local também se encontra impedida de especificar bem a verdade. Isto pode afetar a sua harmonia com a denominação ou com a associação. Definir o evangelho cuidadosamente (como apresentado na Bíblia) traria conflito com a organização de mocidade; ou talvez demonstre que as lições de escola dominical presentemente em utilização devam ser descartadas; ou mesmo que aquela campanha tenha de ser abandonada. Dar atenção ao conteúdo do evangelho pode significar atrito com outros evangélicos, e a premissa é que a unidade é chave de sucesso.

Em todas as épocas e lugares, os servos de Cristo estão sob a ordem de evangelizar, ou seja, proclamar o evangelho. Nas páginas da Bíblia, a evangelização é algo que centraliza-se em Deus. A Escritura Sagrada exige que a evangelização seja da parte de Deus, .por meio dEle e para Ele. (Rm 11.36). É triste dizer, mas grande parte da evangelização contemporânea é antropocêntrica . centralizada no homem.5 Com excessiva freqüência, as luzes da ribalta focalizam o evangelista . sua personalidade, eloqüência, a arte com que ele dispõe os argumentos, a história de sua conversão, as dificuldades pelas quais passou, o número de pessoas que se converteram pelo trabalho dele e, em alguns casos, os milagres que alguns dizem que ele realizou. Às vezes, a atenção é posta nos que estão sendo evangelizados. Ressalta-se o grande número deles, o triste estado em que se encontram . exemplificado na pobreza, doença e imoralidade . sua suposta ansiedade pelo evangelho da salvação e, pior de tudo, fala-se do bem que existe neles e os capacita a exercitarem a fé salvadora, por sua livre vontade, embora não regenerada. E quantas vezes o bem-estar do homem . bemestar terreno ou eterno . é a única finalidade da evangelização!

Uma igreja sadia necessita ter entre suas características uma compreensão bíblica do evangelismo. Para todos os membros da igreja, mais particularmente para os líderes que têm o privilégio e responsabilidade de ensinar, uma compreensão bíblica do evangelismo é crucial. Naturalmente, isso precisa estar intimamente relacionado a outras compreensões bíblicas, como, por exemplo, a do evangelho e a da conversão. É óbvio que a maneira como alguém compartilha o evangelho está intimamente relacionada ao modo como ele o compreende. Quando o evangelho é redefinido como algo que significa pouco mais do que uma mensagem de auto-ajuda espiritual, e a conversão degenera-se de um ato de Deus para uma mera resolução humana, a compreensão e prática da evangelização terão suas conseqüências lógicas. Por outro lado, se a mente for moldada pela Bíblia no que concerne a Deus, ao evangelho, à necessidade humana e à conversão, uma correta compreensão do evangelismo fluirá naturalmente.

Quando alguém herda práticas e ensinamentos que presume serem corretos na prática da evangelização, talvez nunca pense em questionar a metodologia e a mensagem com a qual está acostumado. Entretanto, este assunto é sério e afeta cada um de nós. Essas coisas devem preocuparnos.

Lembro-me bem de quando li Evangelização e Soberania de Deus, de J. I. Packer. Ele foi um instrumento usado por Deus para auxiliar-me no equilíbrio do conceito bíblico de evangelização. Eu havia assumido a Cadeira de Evangelismo em um seminário batista e deparavame com o desafio de fornecer aos alunos um conceito adequado e, portanto, bíblico de evangelização. À época, eu pensava que os cristãos evangélicos não precisavam gastar tempo em discutir este asssunto. Em vista da ênfase que os evangélicos sempre deram à primazia da evangelização, seria natural imaginar que todos fossem perfeitamente unânimes sobre o que ela significa. Eu estava errado! Logo entendi que reinava grande confusão acerca deste ponto. A raiz da confusão pode ser dita numa sentença. .Trata-se de nosso generalizado e persistente hábito de definir a evangelização não em termos de uma mensagem anunciada, mas de um efeito produzido em nossos ouvintes.. Isto significa dizer que a essência da evangelização é produzir convertidos.

Isso, entretanto, não pode ser correto. A evangelização é uma obra do homem, mas a dádiva da fé pertence a Deus. É verdade, realmente, que cada evangelista tem por alvo converter os pecadores e que nossa definição expressa perfeitamente o ideal que ele deseja ver cumprido em seu próprio ministério; porém, a questão de ele estar ou não evangelizando não pode ser resolvida simplesmente pela pergunta: .Meu ministério tem produzido conversões?. Missionários entre os muçulmanos têm labutado durante a vida inteira sem ver qualquer convertido; deveríamos concluir que não estão evangelizando? Tem havido pregadores não-evangélicos através de cujas palavras (nem sempre compreendidas no sentido pretendido) algumas pessoas foram saudavelmente convertidas; deveríamos concluir que esses pregadores estavam evangelizando? Certamente a resposta é negativa em ambos os casos. Os resultados da pregação dependem não das vontades e intenções dos homens, mas da vontade do Deus todo-poderoso. Essa consideração não quer dizer que devamos ser indiferentes quanto a ver ou não os frutos de nosso testemunho em favor de Cristo; se não estiverem aparecendo os frutos, devemos buscar a face de Deus para descobrir o motivo. Essa consideração, todavia, significa que não devemos definir a evangelização em termos dos resultados obtidos.

Como, pois, deveria ser definida a evangelização? A resposta dada pelo Novo Testamento é muito simples. De acordo com o Novo Testamento, a evangelização consiste apenas na pregação do evangelho, as boas novas. É uma obra de comunicação na qual os crentes se tornam porta-vozes da mensagem sobre a misericórdia de Deus para os pecadores. Todos quantos anunciam fielmente essa mensagem, sob quaisquer circunstâncias, tanto em numerosa como em pequena reunião, em um púlpito ou em conversa particular, estão evangelizando. Visto que a mensagem divina tem por clímax o apelo da parte do Criador a um mundo rebelde, para que este se volte e deposite fé em Cristo, a entrega da mensagem envolve a chamada dos ouvintes à conversão. Se não estamos procurando obter conversões nesse sentido, não estamos evangelizando. Porém, a maneira de saber se alguém está evangelizando de fato não é perguntar se o testemunho está produzindo conversões. Pelo contrário, é perguntar se o pregador está proclamando fielmente a mensagem evangélica.

Assim, pois, de acordo com a Bíblia, evangelismo consiste em apresentar as boas novas livremente, confiando a Deus a conversão das pessoas (At 16.14). .Ao SENHOR pertence a salvação. (Jn 2.9). Qualquer meio que utilizemos para forçar nascimentos espirituais será tão eficaz quanto Ezequiel tentando costurar os ossos secos ou Nicodemos procurando dar a si próprio um novo nascimento. E o resultado será semelhante. Se o número de membros de nossa igreja é notavelmente maior do que o número de presentes aos cultos, o que se entende por conversão? Que tipo de evangelismo tem sido praticado que resulta em tão grande número de pessoas com baixíssimo nível de envolvimento na vida da igreja e sem qualquer distinção dos incrédulos?

O pragmatismo tem afetado sensivelmente nossos conceitos, metodologias e práticas na evangelização. Pragmatismo é a noção de que o significado ou valor é determinado pelas conseqüências práticas. É muito similar ao utilitarismo, a crença de que a utilidade estabelece o padrão para aquilo que é bom. Para um pragmatista/utilitarista, se determinada técnica ou curso de ação resulta no efeito desejado, sua utilização é válida. Se parece não produzir resultados, então não tem valor. Algo é bom desde que funcione. Os pragmáticos, portanto, definem a verdade como aquilo que é útil, significativo e benéfico.

O pragmatismo como filosofia foi desenvolvido e popularizado no final do século passado. Conquistou a alma norte-americana e espalhouse por toda a cultura ocidental. O mais alarmante, entretanto, é que um surto irresistível de pragmatismo veio a permear o evangelicalismo. E, arrastados na torrente pragmática avassaladora, as igrejas e seus líderes retiram a teologia do seu lugar de honra e, em lugar desta, entronizam a metodologia. .Quando o pragmatismo se torna a filosofia norteadora da vida, da teologia e do ministério, acaba, inevitavelmente, colidindo com as Escrituras.

Livros e manuais que falam sobre Crescimento de Igreja hoje são best-sellers. Pastores e líderes estão famintos por livros que, de forma simples e prática, narrem o testemunho de líderes e outras igrejas que têm experimentado assombrosos crescimentos numéricos. Porém, de modo geral, nestes livros (bem como nos modelos e projetos por eles apresentados), sente-se falta de uma avaliação teológica dos modelos de planejamento estratégico empregados por essas igrejas e líderes. Atualmente, estão em voga as técnicas de crescimento de igreja que acriticamente absorvem a perspectiva antropológica moderna. Um exemplo: a antropologia adotada pelas correntes de planejamento estratégico está fundamentada na perspectiva de Rosseau, da bondade intrínseca do homem, levando-nos a acreditar que tudo se resolve com o método; homens bons com um método de desenvolvimento adequado significa sucesso garantido.

É sob essa luz que podemos entender a rejeição e o menosprezo da metodologia tradicional . especialmente, da pregação . em favor de novos métodos. Estes, supostamente, são mais .eficazes., ou seja, atraem grandes multidões. O pragmatismo encara a pregação (particularmente, a expositiva) como antiquada. Proclamar de modo claro e simples a verdade da Palavra de Deus é visto como ingênuo, ofensivo e ineficaz. Além disso, grandes mudanças revolucionaram o culto de adoração das igrejas. Os cultos agora são planejados no sentido de serem mais .divertidos., adicionados de grande dose de entretenimento. .O entretenimento está rapidamente se tornando a liturgia da igreja pragmática. A aceitação acrítica e a celebração efusiva de psicologia popular, técnicas de aconselhamento, exagerada ênfase em contextualiza ção, receitas de auto-ajuda, princípios de propaganda e marketing, correntes de administração e controle de qualidade, teorias de crescimento de igreja e outras tendências indicam o crescente comprometimento da igreja com o pragmatismo. Sutilmente, em vez de uma vida transformada, a aceitação por parte do mundo e a quantidade de pessoas alcançadas ou presentes aos cultos vêm se tornando o alvo maior da igreja contemporânea.

A nova filosofia é objetiva: a igreja está competindo com o mundo. O mundo é hábil em captar a atenção e os sentimentos das pessoas. A igreja, por outro lado, tende a ser muito pobre na .venda. de seu produto. Portanto, o evangelismo deve ser visto como um desafio de marketing, e a igreja deveria colocar o evangelho no mercado da mesma forma que todas as empresas modernas colocam os seus produtos. Isso requer mudanças fundamentais. O objetivo de todo marketing é .deixar o produtor e o consumidor satisfeitos.; então, tudo o que tende a deixar o .consumidor. insatisfeito precisa ser jogado fora. A pregação, especialmente a que fala sobre o pecado, a justiça e o juízo, é confrontadora demais para ser verdadeiramente satisfatória. A igreja necessita aprender a .divulgar. a verdade de forma a divertir e entreter.

Em suma, de forma indisfarçada, o que a nova filosofia está dizendo é o seguinte: a igreja tem sido muito antipática. A igreja pode e deve omitir, ou ministrar em doses homeopáticas, os elementos da mensagem bíblica que não se encaixam no plano promocional. O .bom senso. de marketing exige que o escândalo da cruz seja minimizado.

A filosofia contemporânea de ministério está apaixonada pelos padrões mundanos de sucesso... qualquer um que conhece as Escrituras [sabe que] critérios exteriores tais como afluência, números, dinheiro ou reações positivas jamais foram a medida bíblica de sucesso no ministério. Fidelidade, piedade e compromisso espiritual são as virtudes que Deus estima; e tais qualidades deveriam ser os tijolos com os quais se constrói uma filosofia de ministério. Isto é verdadeiro tanto para as igrejas grandes como para as pequenas. Tamanho não é sinônimo da bênção de Deus; popularidade não é barômetro de sucesso... Nas Escrituras, o sucesso exterior jamais é um objetivo digno de ser perseguido.

[Sucesso] não decorre de obtermos resultados a qualquer preço. O verdadeiro sucesso não é prosperidade, poder, proeminência, popularidade ou qualquer outro conceito mundano de sucesso. Sucesso genuíno é fazer a vontade de Deus apesar das conseqüências.

Precisamos retornar à ênfase sobre a necessidade de sermos fiéis. Isso é de importância vital em nossos dias. Acima do sucesso, devemos almejar a fidelidade. Lembremo-nos de Noé. Ele é descrito no Novo Testamento como .pregoeiro da justiça.. Que tipo de sucesso ele teve? Se o avaliarmos pelos critérios das correntes pragmatistas contemporâ- neas, concluiremos que ele foi um evangelista antipático, repetitivo e fracassado. Quanto às conversões, exceto os de sua própria casa, ele não obteve qualquer sucesso. Porém, quando o Senhor voltar, não dirá: .Muito bem, servo bom e bem-sucedido.. Ele dirá: .Muito bem, servo bom e fiel.. Como alguém muito acertadamente já afirmou, no final, o que realmente será levado em conta não é o nosso sucesso, e sim a nossa fidelidade.
Editora Fiel

Jesus - A Simples Verdade

terça-feira, 5 de julho de 2011

A Igreja perseguida



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Nos últimos anos minha atenção foi cativa por um segmento do Corpo de Cristo que tem sido chamado de Igreja sofredora.

por Ronaldo Lidório

Trata-se daqueles que, por serem cristãos, foram seqüestrados e sobre eles nada se sabe. Dos encarcerados nas mais diversas formas (domiciliar, pública, social, emocional...), dos deslocados de suas terras e casas, dos preteridos de professarem abertamente a sua fé e ainda daqueles que sofrem pela exclusão social ou pela angustiante miséria. É chocante notarmos que 1 em cada 3 cristãos no mundo de hoje sofre algum tipo de perseguição, e cerca de 120 milhões habitam em regiões onde há perseguição hostil.

Não podemos fechar os olhos, nem o coração, para esta Igreja que vive e sofre.

O sofrimento não é novo na história do povo de Deus. Em Atos capítulo 8, a Igreja que amava a Jesus e se ajuntava em Jerusalém passou por uma de suas mais fortes provações. No primeiro verso deste capítulo Lucas nos diz que a Igreja era “perseguida”, utilizando aqui um vocábulo grego – diogmos - que significa um forte e visível ataque. Indicava que o sofrimento da Igreja nesta época de dispersão era perceptível por todos. Homens e mulheres eram mortos, outros encarcerados, famílias partidas ao meio e aqueles que conseguiam fugir deixavam para trás suas vidas e história. Esta “perseguição” era, portanto, um terrível sofrimento físico, visível e violento.

No segundo verso Lucas nos diz que a Igreja “pranteava” a morte de Estêvão. O autor, inspirado, escolhe a expressão grega kopeton que significa a dor da alma, ou bater no peito para expressar este pranto. Mostra que esta Igreja se melancolizava pelo caos ao seu redor e, assim, não havia apenas dor no corpo, mas também na alma. Esta Igreja chorava de forma visceral a morte de Estevão, e tantos outros, sofrendo tanto física quanto emocionalmente.

No terceiro verso somos levados a ler que Saulo “assolava” o povo de Deus, utilizando-se aqui a expressão elumaineto que possui a mesma raiz da usada em João 10:10 ligada à destruição da fé e das convicções quando se refere àquele que veio roubar, matar e destruir. Trata-se de um sofrimento espiritual quando os alicerces das convicções mais profundas são atacados.

Estes três níveis de sofrimento descritos em contexto de perseguição em Atos 8 (físico, emocional e espiritual) podem muito bem ilustrar as vias de dor da Igreja ao longo de sua história, bem como nos dias de hoje. Deve nos ensinar que (1) seguir a Cristo – e mesmo fazê-lo com devoção e fidelidade – não isenta o crente do sofrimento; (2) em meio a estes sofrimentos não estamos sós, pois maior é Aquele que está em nós; (3) o sofrimento é uma oportunidade de se alicerçar a fé - daquele que é provado no dia mau – e de expressar amor e sincera solidariedade - por parte daquele que pode estender a mão.

A Coréia do Norte apresenta a mais intensa intolerância religiosa no mundo de hoje e por sete anos se destaca em primeiro lugar na Classificação de Países por Perseguição editada por Portas Abertas Internacional. Encontros cristãos são proibidos e somente realizados sob alto risco e custo. Há pouquíssimas bíblias no país e, assim, poucos cristãos com seu próprio exemplar da Palavra de Deus.

Há no momento cristãos encarcerados, e tantos outros seqüestrados, na Argélia, Azerbaijão, Eritréia, Iêmen e Indonésia, entre vários outros países. No Irã a Missão Voz dos Mártires notifica a forte intimidação sobre aqueles que professam sua fé em Jesus. A medida que a Igreja cresce, também cresce a perseguição. Na década de 90 muitos líderes cristãos foram assassinados.

A Eritréia passa pela época de mais intensa perseguição religiosa em sua história. A distribuição de Bíblias não é permitida e em 2002 todas as igrejas evangélicas foram fechadas por ordem governamental. Cerca de 2.000 cristãos foram presos por se reunirem para louvar a Deus. Muitos são mantidos em condições subumanas, celas subterrâneas ou contenners de metal.

No Egito um recente relatório sobre os direitos humanos apontou para a perseguição semi velada dirigida aos 80 milhões de cristãos coptas que não conseguem permissão para construir igrejas ou orar em casa. Há cerca de 4 ataques por mês contra os coptas no país, e 144 ataques já foram registrados em 2009.

No Iraque milhares de cristãos continuam a fugir da violência, tanto em Bagdá quanto em Mosul, deixando para trás suas casas a procura de refúgio no Curdistão e outras áreas de fronteira. Os cristãos no Iraque, que eram 1 milhão e 400 mil em 1987 não passam hoje de 500 mil. Estes cristãos deslocados enfrentam severa provação, pois se encontram em solo estranho sem emprego, carreira, dinheiro ou amigos.

No norte da Índia a perseguição contra cristãos deslocou um grande número de pessoas que ainda não puderam voltar para suas casas. Igrejas foram queimadas e há um sentimento de insegurança. Apenas na região de Karnataka foram registrados 56 ataques ao longo de 2009 contra igrejas e cristãos.

As restrições para se partilhar de Jesus atingem os mais diversos países e áreas. Transitam desde algumas reservas indígenas da Amazônia, passando pelo Norte da Nigéria até o distante Afeganistão.

Devemos orar e trabalhar para que: (1) Cristãos ao redor do mundo recebam exemplares da Palavra de Deus; (2) Os países e regiões onde há clara perseguição cristã possam experimentar abertura política, social e religiosa; (3) Cristãos sob perseguição sejam encorajados, e aqueles sob intensos ataques sejam fortalecidos no Senhor; (4) Sejam libertos os que, sob perseguição, foram encarcerados ou seqüestrados; (5) Cristãos deslocados sejam apoiados para recomeçarem a vida em novas regiões; (6) O testemunho dos perseguidos possa guiar muitos aos pés do Senhor Jesus; (7) A Igreja livre possa juntar-se em um só espírito àquela que sofre perseguição.

Em um país da Ásia central vi recentemente irmãos que amam a Jesus colocando suas vidas, famílias, carreiras e reputação em risco, alto risco, para testemunharem do amor do Pai. É necessário nos juntarmos a eles para chorar com os que choram e encorajá-los a seguirem este caminho estreito, que os leva à Alegria que se renova pela manhã.

Conheça os projetos de apoio aos cristãos perseguidos
www.portasabertas.org.br
www.vozdosmartires.com.br

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Siga O Caminho

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Você Está Pregando o Evangelho?



D. M. Lloyd Jones

É verdade que, onde abundou o pecado, superabundou a graça; então, .permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante?. A genuína pregação do evangelho da salvação somente pela graça sempre leva à possibilidade desta censura ser lançada contra a graça. Não existe melhor teste para sabermos se um homem está realmente pregando o evangelho do Novo Testamento: algumas pessoas o entendem mal e o interpretam de maneira errada, de modo que chegam à seguinte conclusão: visto que fomos salvos apenas pela graça, realmente não importa tudo que fazemos, podemos continuar pecando como queremos, pois isto redundará em mais glória da graça de Deus. Este é um excelente teste para avaliarmos a pregação do evangelho. Se minha pregação deixa de expor o evangelho ao ponto de gerar este mal-entendido, realmente não estou proclamando o evangelho. Pretendo explicar o que estou afirmando. Se um homem anuncia a justificação por meio de obras, jamais teremos aquele entendimento errado. Se ele diz: .Você deseja ir ao céu? Então precisa parar de cometer pecados, viver um vida repleta de boas obras e observar certas coisas até à sua morte, deste modo será um cristão e irá ao céu, quando morrer.. O pregador da mensagem acima não será acusado de ter dito: .Continuemos a pecar, para que a graça seja abundante.. Mas todo fiel pregador que anuncia o evangelho tem sido acusado de anunciar uma mensagem que estimula a pecar! Todos eles têm sido acusados de .antinomianismo. (estar contra a lei). Eu poderia falar a todos os ministros do evangelho: .SE A SUA PREGAÇÃO DO EVANGELHO NÃO TEM SIDO ENTENDIDA DAQUELA MANEIRA ERRADA, VOCÊ DEVE EXAMINAR SEUS SERMÕES NOVAMENTE.; é melhor certificar-se de que está realmente proclamando a salvação anunciada no Novo Testamento aos ímpios, pecadores, mortos em seus delitos e pecados, inimigos de Deus. Existe um certo elemento de perigo na apresentação da doutrina da salvação.

Fonte Editora Fiel

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domingo, 3 de julho de 2011

Apreciando o Caráter do Puritanismo


Mark Johnston

Examinando grande parte dos livros e afirmações a respeito dos puritanos — até pelos evangélicos — percebemos que seus autores tendem a ser criticados pela imprensa. De fato, o título “puritano” foi criado originalmente como um pejorativo, e muitos ainda o vêem assim em nossos dias. Em um sentido, não é difícil identificar erros, falhas e incoerências naqueles que levavam este nome, nos séculos XVI e XVII, bem como naqueles que são os descendentes espirituais deles. No entanto, focalizar-se nisso equivaleria a ignorar as realizações incríveis destes homens em muitos aspectos da vida.

J. I. Packer entendeu o significado e a relevância dos puritanos, ao compará-los com as sequóias do Norte da Califórnia: “Assim como as sequóias são atraentes aos olhos, porque sobrepujam o topo das outras árvores, assim também a santidade e a firmeza dos grandes puritanos resplandecem como um farol, sobrepujando a estatura da maioria dos crentes, em muitas épocas e, especialmente, nesta época de coletivismo urbano angustiante, quando os crentes do Ocidente sentem-se e, às vezes, assemelham-se a formigas em um formigueiro e marionetes em atividade... Nesta situação, o ensino e o exemplo dos puritanos têm muito a dizer-nos”.

Isso nos deixa admirados. Qual era, então, o caráter do puritanismo, que lhe deu tão amplo alcance e importância duradoura? Podemos selecionar cinco das principais características dignas de consideração:

1.A OPINIÃO DELES A RESPEITO DE DEUS

Tudo em que os puritanos criam originava-se de sua opinião a respeito de Deus. (Isso também a verdade no que concerne aos seus precursores na Reforma, tanto na Europa como na Inglaterra.) Isto é ilustrado pelo fato de que o primeiro apelido depreciativo vinculado a esses homens foi “os precisos” ou “os precisionistas”.

Quando um nobre perguntou a Richard Rogers (um ministro em Wetherfield, Essex) o que o tornava tão preciso, ele respondeu: “Senhor, eu sirvo a um Deus preciso”.

Veja o que está errado em muitas igrejas hoje: os crentes aceitam um ponto de vista sobre Deus que tem sido distorcido em nome do cristianismo popular. Nos anos 1950, J. B. Phillips expressou isso em um livrete intitulado Your God is Too Small (Seu Deus é Pequeno Demais). A restauração de saúde e vigor às igrejas está vinculada à necessidade de resgatarmos uma opinião elevada a respeito de Deus.

2.A ESTIMA DAS ESCRITURAS

Essa consideração das Escrituras é expressa com concisão na Pergunta 2, do Breve Catecismo de Westminster: Que norma Deus nos tem dado a respeito de como podemos glorificá-Lo e desfrutar dEle? Resposta: a Palavra de Deus, contida nas Escrituras do Antigo e Novo testamento, é uma norma verdadeira para nos guiar em como podemos glorificá-Lo e desfrutar dEle. Ao fazer esta afirmação e colocá-la em seu catecismo, estes homens estavam apenas reiterando o princípio Sola Scriptura, que estava no âmago da Reforma Protestante, e protegendo a essência tanto do evangelho como da igreja. O problema de nossos dias não é somente que as Escrituras são rivalizadas com muitas outras formas de revelação, mas também que, muito freqüentemente, elas estão subordinadas à razão. Se o espírito do não-conformismo tem de sobreviver, ele não deve prostrarse nem à nova revelação, nem à erudição, mas somente à Palavra de Deus.

3.O ENTENDIMENTO DA SALVAÇÃO

É comum na teologia contemporânea — pelo menos na teologia popular — imaginar a salvação como “o ponto de conversão”. Mas isso significa perder de vista os horizontes mais amplos da salvação. Thomas Manton nos dá um vislumbre do entendimento bem estruturado da doutrina da salvação, um entendimento que era característico de seus colegas puritanos e moldava a opinião deles sobre o evangelho:

“O resumo do evangelho é isto: todos aqueles que, por meio de arrependimento e fé, abandonarem a carne, o mundo e o diabo, entregando-se ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, como seu Criador, Redentor e Santificador, encontrarão a Deus como o Pai que os recebe como filhos reconciliados, que perdoa os seus pecados, por amor a Jesus, e lhes dá graça, por meio de seu Espírito. E, se perseverarem neste caminho, Ele os glorificará no final e lhes outorgará a felicidade eterna”.

Este entendimento amplo da salvação explica o uso que os puritanos faziam do termo “regeneração” e sua riquíssima compreensão do evangelismo. Também explica a disparidade entre as expectativas referentes à conversão em nossos dias e a maneira como elas se cumprem, uma disparidade que resulta de nosso entendimento restrito da salvação.

4. A APRECIAÇÃO DA IGREJA

Se existe um elemento que pode ser identificado como o principal catalizador para o surgimento dos puritanos, esse elemento era a preocupação deles com a reforma da igreja. Eles tinham um conceito elevado da igreja. Isto começou a se tornar evidente no criticismo deles em relação aos decretos religiosos de Elizabeth.

Muitos dos puritanos jovens eram graduados de Cambridge e entraram no ministério da Igreja Anglicana a fim de pressionar por uma reforma permanente que afetaria cada igreja local. O individualismo pós-iluminista que se tornou a característica peculiar da igreja do século XXI nos roubou este conceito dos puritanos, os quais viam a igreja como o corpo glorioso e a noiva radiante de Cristo — a doutrina da igreja é a Cinderela da teologia.

5. A PREOCUPAÇÃO PELO MUNDO COMO UM TODO

O quinto distintivo digno de ser ressaltado a respeito dos puritanos é o ponto de vista deles sobre a vida e a comunidade como uma unidade integrada. Os puritanos criam que Deus havia sancionado a vida solidária na sociedade. Isso se refletiu nos ousados (mas imperfeitos) esforços deles na esfera política, alcançando seu zênite na Revolução Gloriosa e no estabelecimento do Commonwealth.

Embora os puritanos diferissem quanto à natureza do relacionamento entre a Igreja e o Estado, eles sustentavam a convicção de que a igreja tinha um papel, dado por Deus, em referência à vida da comunidade como um todo, um papel que ia além da necessidade de evangelismo.

A reação contra as aberrações do que se tornou conhecido como o Evangelho Social, na primeira metade do século XX, levou, em muitos casos, à negligência de uma responsabilidade social mais ampla, em muitas igrejas não-conformistas. Contudo, parte significativa da herança puritana ainda se mantém preocupada em que a verdade de Deus seja aplicada aos interesses políticos e sociais, capacitando os crentes a agirem como sal e luz em um mundo de trevas e deterioração.

O problema de grande parte do ressurgimento do interesse pelos puritanos, ressurgimento esse que varreu a Inglaterra na metade do século passado, é que ele aceitou apenas a soteriologia puritano-reformada — uma soteriologia que não assimila a grandeza e a integridade do ponto de vista de nossos antepassados espirituais, que consideram o mundo como parte da vida. (Admiravelmente, isto se contrasta com o ressurgimento correspondente que aconteceu nas igrejas dos Estados Unidos.) Se tem de haver um futuro para o não-conformismo, na misericórdia de Deus, precisamos apreciar novamente o caráter deste movimento, desde os seus primeiros dias.

Fonte Editora FIEL

Jesus - A Simples Verdade

sábado, 2 de julho de 2011

O Zelo de Richard Baxter


Erroll Hulse

Esboçarei a vida de Richard Baxter e, em seguida, destacarei o seu zelo, expresso em sua extraordinária obra pastoral, em Kidderminster, e em seu clássico The Reformed Pastor (O Pastor Aprovado).

Um esboço de sua vida

Richard Baxter nasceu em 1615. Diferentemente da maioria dos famosos ministros puritanos, Baxter não desfrutou de estudos nas universidades de Oxford ou Cambridge. Ele estudou na modesta Escola Pública Donnington. Depois, foi um autodidata. Leitor ávido, Baxter estudou amplamente vários assuntos. Deste modo, tornou-se um homem de excepcional conhecimento e habilidade para debates. Foi ordenado diácono pelo bispo de Worcester, em 1638. Por breve tempo (1641-1642), Baxter trabalhou como preletor e co-pastor em Kidderminster. Em 1642, o país se envolveu em guerra civil. Baxter serviu como capelão no Exército do Parlamento até 1647, retornando a Kidderminster como pastor. Ali, ele trabalhou até 1661. Estes 14 anos, em que teve a idade de 32 a 46 anos, foram notáveis por causa da transformação espiritual operada na cidade. Aquele município foi tão abençoado que se tornou um referencial na história evangélica da Inglaterra.

Quase no fim de seu ministério em Kidderminster, uma viúva chamada Mary Hanmer veio morar na cidade, a fim de obter benefícios do ministério de Baxter. Ela estava acompanhada de sua filha Margaret, que tinha 16 anos de idade, e que era mundana e indiferente ao evangelho. Nos quatro anos seguintes, Margaret foi afetada pelo ministério de Baxter e aos 20 anos foi convertida. Durante este tempo, ela se apaixonou por Baxter, que considerava o celibato ideal para um ministro. Ele proclamava isto com entusiasmo — um ponto de vista que consistia um grande contraste com os puritanos ingleses, os quais afirmavam, com vigor, a doutrina bíblica do casamento e da família. Richard Baxter deixou Kidderminster, para viver em Londres, onde ele usou toda influência possível a fim de obter um tratamento justo para os puritanos. Mary e Margaret o seguiram e passaram a morar perto dele. O Ato de Uniformidade, sancionado pelo Parlamento, em 1662, era rígido e severamente contrário à consciência dos puritanos.

O Ato de Uniformidade levou os puritanos a deixarem a Igreja Anglicana. Cerca de 2.000 ministros puritanos sofreram a perda de seu sustento, naquilo que, na História, ficou conhecido como a Grande Expulsão. É claro que isto incluiu Baxter. Sua vida foi arruinada: fora cruelmente despojado de sua razão de ser. Ele era pastor por natureza, agora sem igreja; um pregador nato, sem púlpito. A sua justificativa para o celibato desapareceu. Baxter se casou com Margaret em 19 de setembro de 1662. Ela estaria sempre com ele, confortando-o, prestando-lhe cuidado nas freqüentes enfermidades, apoiando todos os interesses práticos de sua vida. Viver com Margaret foi a maior consolação desfrutada por ele durante os anos difíceis que vieram depois. O restante da vida de Baxter foi marcado por aflições. Em 1669, ficou preso por mais de uma semana em Clerkenwell e por 21 meses em Southwark (1685-1686). Ele nunca teve uma saúde robusta e precisou lutar contra graves surtos de enfermidade.

Em novembro de 1672, Baxter pregou publicamente pela primeira vez em dez anos. Margaret (1636-1681) empregou, com generosidade, parte considerável de sua herança para garantir que Richard Baxter exercesse um ministério público eficiente. Ela alugou um salão público, onde cabiam 800 pessoas, em uma das áreas mais carentes de Londres e contratou algumas pessoas para ajudarem Baxter em seu ministério.

Durante o tempo de exclusão do ministério público, Richard Baxter usou seu tempo para escrever. Seus escritos excederam, em quantidade, os de John Owen. Diferentemente de John Owen, que talvez seja o melhor teólogo de língua inglesa, Richard Baxter era neonomiano e amiraldiano. Infelizmente, isto produziu confusão teológica nas duas gerações seguintes. Os leitores dos três clássicos de Baxter — O Descanso Eterno dos Santos (“The Saints’ Ever- lasting Rest”), uma explicação a respeito do céu; Um Apelo ao Não-convertido (“A Call to the Unconverted”) e O Pastor Aprovado (“The Reformed Pastor”) — não perceberão estes erros. É mais fácil ler Baxter que Owen. A sua obra mais extensa intitula-se Diretório Cristão (“Christian Directory”) e aborda cada aspecto da vida cristã sob um ponto de vista prático. É na aplicação prática das Escrituras que vemos o melhor de Baxter. Ele possuía um poderoso dom de constranger e levar a consciência à obediência.

Richard Baxter era sempre zeloso no que se refere à obra missionária. Ele foi um dos principais motivadores do estabelecimento da Sociedade de Propagação do Evangelho. John Eliot, famoso como “o apóstolo dos índios americanos”, encontrou em Baxter um excelente auxiliador. Durante a sua última enfermidade, em 1691, Baxter leu A Vida de Eliot e escreveu ao seu autor, Increase Mather: “Pensei que morreria por volta das 12 horas, na cama, mas o seu livro vivificou-me. Conheço muitas das opiniões do Sr. Eliot, por meio das várias cartas que recebi dele. Não houve na terra um homem que honrei mais do que ele. A obra evangélica de Eliot é a sucessão apostólica pela qual eu mesmo suplico”.

Evangelismo zeloso em Kidderminster

Na qualidade de pastor, Richard Baxter era excepcional. O sucesso do evangelho em Kidderminster, sob a liderança dele, foi singular. Não podemos encontrar na história evangélica da Inglaterra algo que se compare com este sucesso.

A cidade tinha aproximadamente 800 casas e uma população entre 2.000 e 4.000 pessoas. Baxter percebeu que eles eram “ignorantes, rudes e festeiros”. Uma notável mudança ocorreu. “Quando comecei meus trabalhos, tive cuidado especial por todos os que eram humildes, reformados ou convertidos. Mas, quando já havia trabalhado por bom tempo, aprouve a Deus que os convertidos fossem tantos, que não pude me dar ao luxo de gastar tempo com observações particulares; famílias e considerável número de pessoas vieram de uma só vez, amadureceram e cresceram, de um modo que não sei explicar”. O método de Baxter consistia em visitar casa por casa e ser bastante direto no assunto de conhecer a Deus com fé salvadora.

No prédio da igreja cabiam 1.000 pessoas. Cinco galerias foram acrescentadas para acomodar a congregação.Quando Baxter chegou a esta pobre cidade, onde a tecelagem era a principal atividade, ela era um deserto espiritual. Quando ele deixou Kidderminster, era um jardim belo e promissor. “No Dia do Senhor, qualquer um que caminhasse pelas ruas poderia ouvir centenas de famílias cantando salmos e repetindo sermões. Quando cheguei ali, somente uma família, em cada rua, adorava a Deus e invocava o seu nome. Quando saí, havia algumas ruas em que não havia nem uma família que não confessasse uma piedade séria, que nos dava esperança quanto à sinceridade deles.”

Posteriormente, Baxter escreveu: “Embora eu tenha estado ausente deles por quase seis anos e tenham sido assaltados por ameaças, calúnias e difamações a respeito da pregação, eles permanecem firmes e mantêm a sua integridade. Muitos deles estão com o Senhor. Alguns foram expulsos; alguns estão presos. Mas nenhum deles, sobre os quais tenho ouvido, caiu ou abandonou a sua retidão”. Quando, em dezembro de 1743, George Whitefield visitou Kidderminster, ele escreveu a um amigo: “Fui grandemente revigorado ao ver que o agradável aroma da boa doutrina, da obra e da disciplina do Sr. Baxter permanece até hoje”.

A principal diferença entre Baxter e a maioria dos pastores, do passado e do presente, é que ele combinava a pregação com o testemunho pessoal direto, pessoa a pessoa. Com muita freqüência, os pastores contentam-se em confinar seu testemunho do evangelho ao púlpito. A atitude e a prática de Baxter se revelam com clareza em seu livro O Pastor Aprovado (“The Reformed Pastor”).

Richard Baxter e “O Pastor Aprovado”

Os membros da Associação de Worcester, a fraternidade de clérigos que tinha Baxter como espírito propulsor, se comprometeram a adotar o método de catequese paroquial sistemática, conforme o método de Baxter. Eles estabeleceram um dia de jejum e oração, para buscarem a bênção de Deus sobre este empreendimento e pediram a Baxter que pregasse naquele dia. Entretando, quando o dia chegou, Baxter se encontrava muito doente para estar presente; por isso, em 1656, ele publicou o material que havia preparado, uma exposição completa de Atos 20.28. Esse material recebeu o título de O Pastor Aprovado (“The Reformed Pastor”). Este livro tornou-se famoso, e tem sido usado em todas as gerações, até ao presente. Por exemplo, a edição da Banner of Truth, com a excelente introdução de J. I. Packer, surgiu em 1974; e edições posteriores foram realizadas em 1979, 1983, 1989, 1994, 1997, 1999 e 2001.

A palavra Aprovado (Reformed), no título, não significa calvinista em doutrina, e sim renovado em suas práticas. Este tratado é uma dinamite espiritual, e foi reconhecido assim desde a sua criação. Um mês depois de sua publicação, um leitor escreveu: “Ó homem grandemente abençoado! O Senhor revelou suas coisas secretas para você, pelas quais muitas almas na Inglaterra se levantarão e bendirão a Deus por você”.

Isto provou estar correto. O livro de Baxter, O Pastor Aprovado, ainda é o melhor manual quanto aos deveres de um pastor. Nada tem excedido o seu poder e sua eficácia. É um imperativo para todo pastor.

Na edição da Banner of Truth, J. I. Packer sugere que o vigor e o poder evocativo do livro atravessam três séculos. Ele descreve três excelentes qualidades de O Pastor Aprovado.

A primeira é o seu vigor. “As palavras do livro têm mãos e pés.” Baxter possuía olhos perscrutadores e, certamente, tinha palavras perscrutadoras. “Seu livro arde com zelo sincero e ardente, com fervor evangelístico e sinceridade para convencer.”

A segunda qualidade é que o livro contém realidade. “É honesto e direto. Freqüentemente se diz, com exatidão, que qualquer cristão que ama o seu próximo e pensa seriamente que, sem Cristo, os homens estão perdidos não será capaz de descansar tranqüilamente com o pensamento de que todos ao seu redor estão indo para o inferno, mas se disporá, irrestritamente, a testemunhar, tendo isso como seu principal objetivo de vida. E qualquer crente que deixa de viver deste modo destrói a credibilidade de sua fé. Pois, se ele mesmo não pode, com seriedade, ter isso como norma de seu viver, quem mais pode ter? Nenhuma outra obra manifesta tanta solidez como O Pastor Aprovado. Nesta obra, encontramos um amor apaixonado e um crente terrivelmente honesto, sincero e correto pensando e falando sobre o perdido, com realismo perfeito, insistindo em que temos de aceitar alegremente qualquer grau de desconforto, pobreza, trabalho excessivo e perda de bens materiais, se almas forem salvas, e apresentando, em sua própria pessoa, um exemplo vívido do que está envolvido nesta obra.”

Terceira, o livro é um modelo de racionalidade. J. I. Packer diz que o livro expressa bom senso. A responsabilidade é ressaltada com clareza. “A graça entra por meio do entendimento.” Baxter insistia em que os ministros têm de pregar a respeito de assuntos eternos como homens que sentem o que falam e se mostram sérios a respeito do assunto de vida e morte eterna. Baxter também sustentava que a disciplina da igreja tem de ser praticada para mostrar que Deus não aceita o pecado.

Em sua exposição de Atos 20. 28, Baxter esclarece a exortação “atendei por vós”. Ele também explica o significado de atender por todas as ovelhas do rebanho. Começa com o não-convertido e os inclui em sua percepção. Ele exorta os pastores à supervisão cuidadosa das famílias e persiste em que temos de ser fiéis em admoestar os transgressores. No que diz respeito ao modo como deve ser administrada esta supervisão, ela tem de ser realizada com franqueza e simplicidade, com humildade e uma mistura de severidade e brandura, com seriedade e zelo, com ternura e amor para com as pessoas, com paciência e reverência, com espiritualidade e desejos sinceros de sucesso, com um profundo senso de nossa própria incapacidade. Finalmente, Baxter nos convoca a labutarmos unidos com outros ministros do evangelho, o que é sobremodo importante em nossos dias, quando divisões são mantidas por razões insignificantes e não-bíblicas.

O zelo de Richard Baxter resplandece em O Pastor Aprovado. As exortações de Baxter retinem com sinceridade porque ele vivia o que pregava. À semelhança de um oficial militar, Baxter leva os seus soldados à batalha. Ele não dá ordens a partir de uma zona de segurança.

A maneira como Baxter se dirigia à pessoas, quer em público, quer em particular, se reflete em Um Apelo ao Não-Convertido (“A Call to the Unconverted”), que vendeu 20.000 exemplares no seu primeiro ano de publicação e foi traduzido para vários idiomas. O versículo de abertura deste livro é Ezequiel 33.11: “Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois por que haveis de morrer, ó casa de Israel?” A compaixão expressa neste versículo de Ezequiel é muito semelhante ao zelo ardente que o Espírito Santo produziu em Richard Baxter.

Fonte Editora Fiel

Jesus - Simples Verdade

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os Puritanos




Erroll Hulse
Em nossos dias, o termo Puritano é utilizado, em um sentido geral, para descrever aqueles que redescobriram as doutrinas bíblicas e as práticas dos Puritanos e procuram exemplificá-las na realidade do mundo contemporâneo. Embora não tenha seguido a prática Puritana de expor sistematicamente os livros da Bíblia, C. H. Spurgeon é reputado um Puritano nascido fora de tempo.

Os valores dos puritanos se tornam realidade no pastorado. O Puritanismo é uma realidade que se expressa na pregação e no cuidado pastoral realizados semanalmente. Muitos podem testemunhar a maravilhosa ajuda proporcionada pela redescoberta dos valores exemplificados pelos Puritanos. O encorajamento obtido é incalculável.

É quase impossível negar que os Puritanos (usando a palavra no sentido amplo e inclusivo) se mostraram mais fortes naquilo que os evangélicos de nossos dias são mais fracos. E os escritos dos Puritanos podem fornecer mais ajuda do que qualquer outro grupo de ensinadores cristãos, do passado e do presente, desde os dias dos apóstolos. Esta é uma afirmação categórica, mas existe base sólida para ela. Considere as características do cristianismo Puritano.

Eles eram homens de extraordinária capacidade intelectual, cujos hábitos mentais, fomentados pela elevada erudição, estavam unidos a zelo intenso para com Deus e a minuciosa familiaridade com o coração humano. Todas as obras dos Puritanos revelam esta fusão singular de dons e graça. A apreciação deles para com a soberana majestade de Deus era profunda, assim como o era a sua reverência em lidar com a Palavra de Deus. Eles entendiam os caminhos de Deus para com os homens, a glória de Cristo como Mediador e a obra do Espírito Santo no crente e na Igreja, de maneira tão rica e tão completa como ninguém mais os compreendeu desde a época deles. O conhecimento dos Puritanos não era apenas uma ortodoxia teórica. Eles procuravam “transformar em prática” (expressão deles mesmos) tudo o que Deus lhes ensinava. Sujeitavam sua consciência às Escrituras, disciplinando-se para encontrar uma justificação teológica, distinta de uma justificação apenas pragmática, para tudo o que faziam. Eles viam a família, a Igreja, o Estado, as artes e as ciências,o comércio e a indústria e o envolvimento das pessoas nestas diferentes circunstâncias como as diversas áreas nas quais o Senhor e Criador de todas as coisas poderia ser glorificado e servido.

Então, conhecendo a Deus, os Puritanos também conheciam o homem. Eles o viam como um ser essencialmente nobre, criado à imagem de Deus, para governar o mundo, mas que agora está embrutecido e corrompido pelo pecado. À luz da lei, da santidade e do senhorio de Deus, os Puritanos viam o pecado em seu caráter tríplice: a) transgressão e culpa; b) rebelião e usurpação; c) impureza, corrupção e incapacidade para o bem. Vendo essas coisas e conhecendo (conforme eles conheciam) os caminhos e os meios pelos quais o Espírito Santo traz os pecadores à fé e à nova vida em Cristo e leva os santos a se tornarem mais e mais semelhantes à imagem de seu Salvador, por decrescerem em direção à humildade e crescerem na dependência da graça, os Puritanos se tornaram pastores excelentes em seu tempo. Por isso, eles podem, mesmo depois de mortos, ainda falar conosco, para nos oferecer orientação e direção.

Nós, evangélicos, precisamos de ajuda. Enquanto os Puritanos exigiam ordem, disciplina, profundidade e inteireza, nosso temperamento é caracterizado por casualidade e impaciência inquietante. Temos um intenso desejo por novidades, coisas sensacionais e entretenimento. Temos perdido nosso prazer por estudo consistente, humilde auto-análise, meditação disciplinada e trabalho árduo e comum, em nossa vocação e nossas orações. Enquanto o Puritanismo tinha a Deus e a sua glória como o elemento que os unia, nossa maneira de pensar gira em torno de nós mesmos, como se fôssemos o centro do universo. A superficialidade de nosso biblicismo se torna aparente sempre que separamos as coisas que Deus uniu. Por conseguinte, nos preocupamos com o indivíduo, em vez de nos preocuparmos com a igreja; e nos preocupamos em falar, em vez de nos preocuparmos com a adoração. Ao evangelizarmos, pregamos o evangelho sem a Lei e a fé sem o arrependimento, enfatizando o dom da salvação e encobrindo o custo do discipulado. Não é de admirar que muitos dos que professam a conversão retornem à incredulidade.

Então, ao ensinarmos a respeito da vida cristã, nosso costume é apresentá-la como um caminho de sentimentos comoventes, em vez de a apresentarmos como um andar de fé operante, e um caminho de intervenções sobrenaturais, em vez de um caminho de santidade racional. E, ao lidarmos com a experiência cristã, nos demoramos muito em falar constantemente sobre alegria, felicidade, satisfação e descanso da alma, sem qualquer menção equilibrada sobre o descontentamento espiritual de Romanos 7, a batalha da fé, de Salmos 73, ou sobre as responsabilidades e disciplinas providenciais que constituem o quinhão de um filho de Deus. A alegria espontânea do extrovertido chega a ser equiparada com o viver cristão saudável, e os extrovertidos joviais de nossas igrejas se tornam complacentes na carnalidade, enquanto as almas piedosas de temperamento menos extrovertido são deixadas de lado como anormais, porque não podem demonstrar alegria e entusiasmo de conformidade com a maneira prescrita. Eles consultam seu pastor a respeito desse assunto, mas ele não lhes pode oferecer melhor remédio do que dizer-lhes que procurem um psicanalista! Na verdade, precisamos de ajuda, e os Puritanos nos podem dar esta ajuda.
Reconhecemos que não é o Puritanismo que encherá a terra. A verdade bíblica está destinada a encher a terra, como as águas cobrem o mar. Visto que o Puritanismo, no sentido popular e amplo, está muito próximo da verdade bíblica, não podemos falar de maneira tão pessimista a respeito de sua ruína. Spurgeon se referiu, em seus dias, àqueles que intentavam pintar mal as janelas da verdade e zombavam do Puritanismo. Mas virá o dia, afirmou Spurgeon, em que eles se envergonharão, ao contemplarem a luz do céu irrompendo uma vez mais. E isso tem acontecido!
Fonte Editora Fiel
Jesus - A Simples verdade