Jesus - a Simples Verdade

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Incapacidade da Vontade Humana





Arthur W. Pink

Está na esfera da vontade humana a capacidade de aceitar ou rejeitar o Senhor Jesus como Salvador? Visto que o evangelho é anunciado ao pecador e que o Espírito Santo o convence de sua condição de perdido, está no poder de sua própria vontade resistir ou render-se a Deus? As respostas destas perguntas definem nossa opinião a respeito da depravação do homem.

Todos os crentes concordam com o fato de que o homem é uma criatura caída. Mas, freqüentemente, é muito difícil determinar o que eles querem dizer ao utilizarem o vocábulo “caído”. A impressão geral parece ser esta: o homem não está mais na mesma condição em que saiu das mãos do Criador; ele está sujeito a enfermidades e herdou tendências perversas; mas, se empregar ao máximo as suas habilidades, o homem será, de alguma maneira, capaz de desfrutar o máximo da felicidade.

Oh! quão distante isso está da terrível verdade! Enfermidades, doenças e a morte física são apenas ninharias em comparação com os resultados morais e espirituais da Queda! Somente quando examinamos as Escrituras Sagradas, podemos obter alguma idéia correta a respeito da extensão dessa terrível calamidade. Quando dizemos que o homem é totalmente depravado, estamos afirmando que a entrada do pecado na constituição humana afetou todas as partes e todas as faculdades do homem. A depravação total significa que o homem, em seu corpo, alma e espírito, é escravo do pecado e servo de Satanás — está andando de acordo com “o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (Ef 2.2).

Não precisamos argumentar em favor desta verdade; é um fato comum da experiência dos homens. O homem é incapaz de atingir suas próprias aspirações e concretizar seus próprios ideais. Ele não pode fazer as coisas que gostaria de fazer. Existe uma incapacidade moral que o paralisa. Esta é uma prova de que ele não é um ser livre e que, ao contrário disso, é um escravo do pecado e de Satanás. “Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos” (Jo 8.44).

O pecado é muito mais do que uma atitude ou uma série de atitudes; é a constituição do próprio homem. O pecado cega o entendimento, corrompe o coração e separa o homem de Deus. E a vontade do homem não escapou dos efeitos do pecado. A vontade está sob o domínio do pecado e de Satanás. Portanto, a vontade não é livre. Em resumo, as afeições amam e a vontade escolhe de acordo com o estado do coração; e, visto que este é enganoso e desesperadamente corrupto, mais do que todas as coisas, “não há quem entenda, não há quem busque a Deus” (Rm 3.11).

Jesus A Simples Verdade

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"O amor une; a doutrina divide". Será? - John Piperr


A verdade é a raiz do amor

Menciono em primeiro lugar o exemplo de amor de Jesus, não apenas por ser o primeiro e mais evidente ato de amor observado em suas palavras, mas porque, na época em que vivemos, o amor é quase sempre contrastado com a defesa da verdade. Não é o que Jesus demonstra, nem aqui nem em outro lugar. Se alguém dissesse a Jesus: "O amor une; a doutrina divide", penso que Jesus olharia fundo na alma dessa pessoa e diria: "A doutrina verdadeira é a raiz do amor. Portanto, quem se opuser a ela, destruirá a raiz da unidade".
Jesus nunca opôs a verdade ao amor. Pelo contrário, afirmou ser ele próprio a personificação e a essência da verdade: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14.6). Referindo-se outra vez a si mesmo, disse: "Aquele que fala por si mesmo busca a sua própria glória, mas aquele que busca a glória de quem o enviou, este é verdadeiro; não há nada de falso a seu respeito" (Jo 7.18). Foi esta afirmação abrangente de Jesus: "... para isto vim ao mundo; para testemunhar da verdade...” (Jo 18.37), para explicar por que ele viera ao mundo, que levou Pilatos a perguntar com ceticismo: “Que é a verdade?” (Jo 18.38). Até seus adversários viram quanto Jesus era indiferente às opiniões do povo e quão dedicado era à verdade. “Mestre, sabemos que és verdadeiro e não te importas com quem quer que seja...” (Marcos 12.14). Quando Jesus deixou este mundo e retornou para o Pai, no céu, o espírito que enviou em seu lugar foi chamado “Espírito da verdade”: “Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito” (Jo 15.26).

Portanto, diferentemente de muitos que comprometem a verdade apenas para seguir alguém, Jesus fez o oposto. A descrença de deus ouvintes confirmava a necessidade de uma profunda mudança neles, não na verdade: “Todos os que são da verdade me ouvem” (Jo 18.37); “No entanto, vocês não crêem em mim, porque lhes digo a verdade!” (Jo 8.45). Quando a verdade não produz a reação que queremos – quando ela não “funciona” -, não devemos abandoná-la. Jesus não é pragmático quando se trata de amar as pessoas com a verdade. Nós falamos a verdade, e se ela não for capaz de vencer a opinião do outro, não devemos pensar em mudá-la, e sim orar para que nossos ouvintes sejam despertados e modificados pela verdade: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” (Jo 8.32). Jesus orou: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17).

Quando ora para que seu povo seja santificado na verdade, Jesus revela as raízes do amor. A santificação – ou santidade, conforme Jesus a entende –, implica transformar-se numa nova pessoa. Ele está orando para que nos tornemos pessoas que amam, misericordiosas, pacificadoras e perdoadoras. Tudo isso faz parte da oração: “Santifica-os”, e tudo isso acontece em verdade e pela verdade, jamais separado dela. O esforço de opor o amor à verdade é como pôr a fruta contra a raiz ou o acendedor contra o fogo; ou como construir, sem um alicerce firme, um dormitório no segundo pavimento da casa. A casa inteira desmoronará, levando junto o dormitório, se o alicerce ruir. O amor vive pela verdade, inflama-se por meio da verdade e subsiste por causa da verdade. Foi por isso que o primeiro ato de amor de Jesus, ao nos dar o mandamento de amar, foi corrigir uma falsa interpretação das Escrituras.

Fonte: Perólas do Evangelho
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terça-feira, 18 de outubro de 2011

Cristianismo de Entretenimento



John MacArthur


John MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master’s College and Seminary e do ministério “Grace to You”; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos.


A igreja pode enfrentar a apatia e o materialismo satisfazendo o apetite das pessoas por entretenimento? Evidentemente, muitas pessoas das igrejas pensam assim, enquanto uma igreja após outra salta para o vagão dos cultos de entretenimento.

Uma tendência inquietante está levando muitas igrejas ortodoxas a se afastarem das prioridades bíblicas.

O que eles querem

Os templos das igrejas estão sendo construídos no estilo de teatros. Ao invés de no púlpito, a ênfase se concentra no palco. Alguns templos possuem grandes plataformas, que giram ou sobem e descem, com luzes coloridas e poderosas mesas de som.

Os pastores espirituais estão dando lugar aos especialistas em comunicação, aos consultores de programação, aos diretores de palco, aos peritos em efeitos especiais e aos coreógrafos.

O objetivo é dar ao auditório aquilo que eles desejam. Moldar o culto da igreja aos desejos dos freqüentadores atrai muitas pessoas.

Como resultado disso, os pastores se tornam mais parecidos com políticos do que com verdadeiros pastores, mais preocupados em atrair as pessoas do que em guiar e edificar o rebanho que Deus lhes confiou.

A congregação recebe um entretenimento profissional, em que a dramatização, os ritmos populares e, talvez, um sermão de sugestões sutis e de aceitação imediata constituem o culto de adoração. Mas a ênfase concentra-se no entretenimento e não na adoração.

A idéia fundamental

O que fundamenta esta tendência é a idéia de que a igreja tem de “vender” o evangelho aos incrédulos — a igreja compete por consumidores, no mesmo nível dos grandes produtos.

Mais e mais igrejas estão dependendo de técnicas de vendas para se oferecerem ao mundo.

Essa filosofia resulta de péssima teologia. Presume que, se você colocar o evangelho na embalagem cor-reta, as pessoas serão salvas. Essa maneira de lidar com o evangelho se fundamenta na teologia arminiana. Vê a conversão como nada mais do que um ato da vontade humana. Seu objetivo é uma decisão instantânea, ao invés de uma mudança radical do coração.

Além disso, toda esta corrupção do evangelho, nos moldes da Avenida Madison, presume que os cultos da igreja têm o objetivo primário de recrutar os incrédulos. Algumas igrejas abandonaram a adoração no sentido bíblico.

Outras relegaram a pregação convencional aos cultos de grupos pequenos em uma noite da semana. Mas isso se afasta do principal ensino de Hebreus 10.24-25: “Consideremo-nos também uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de congregar-nos”.

O verdadeiro padrão

Atos 2.42 nos mostra o padrão que a igreja primitiva seguia, quando os crentes se reuniam: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”.

Devemos observar que as prioridades da igreja eram adorar a Deus e edificar os irmãos. A igreja se reunia para adoração e edificação — e se espalhava para evangelizar o mundo.

Nosso Senhor comissionou seus discípulos a evangelizar, utilizando as seguintes palavras: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28.19). Ele deixou claro que sua igreja não tem de ficar esperando (ou convidando) o mundo para vir às suas reuniões, e sim que ela tem de ir ao mundo.

Essa é uma responsabilidade de todo crente. Receio que uma abordagem cuja ênfase se concentra em uma apresentação agradável do evangelho, no templo da igreja, absolve muitos crentes de sua obrigação pessoal de ser luz no mundo (Mateus 5.16).

Estilo de vida

A sociedade está repleta de pessoas que querem o que querem quando o querem. Elas vivem em seu próprio estilo de vida, recreação e entretenimento. Quando as igrejas apelam a esses desejos egoístas, elas simplesmente põem lenha nesse fogo e ocultam a verdadeira piedade.

Algumas dessas igrejas estão crescendo em expoentes elevados, enquanto outras que não utilizam o entretenimento estão lutando. Muitos líderes de igrejas desejam crescimento numérico em suas igrejas, por isso, estão abraçando a filosofia de “entretenimento em primeiro lugar”.

Considere o que esta filosofia causa à própria mensagem do evangelho. Alguns afirmam que, se os princípios bíblicos são apresentados, não devemos nos preocupar com os meios pelos quais eles são apresentados. Isto é ilógico.

Por que não realizarmos um verdadeiro show de entretenimento? Um atirador de facas tatuado fazendo malabarismo com serras de aço se apresentaria, enquanto alguém gritaria versículos bíblicos. Isso atrairia uma multidão, você não acha?

É um cenário bizarro, mas é um cenário que ilustra como os meios podem baratear e corromper a mensagem.

Tornando vulgar

Infelizmente, este cenário não é muito diferente do que algumas igrejas estão fazendo. Roqueiros punk, ventríloquos, palhaços e artistas famosos têm ocupado o lugar do pregador — e estão degradando o evangelho.

Creio que podemos ser inovadores e criativos na maneira como apresentamos o evangelho, mas temos de ser cuidadosos em harmonizar nossos métodos com a profunda verdade espiritual que procuramos transmitir. É muito fácil vulgarizarmos a mensagem sagrada.

Não se apresse em abraçar as tendências das super-igrejas de alta tecnologia. E não zombe da adoração e da pregação convencionais. Não precisamos de abordagens astuciosas para que tenhamos pessoas salvas (1 Coríntios 1.21).

Precisamos tão-somente retornar à pregação da verdade e plantar a semente. Se formos fiéis nisso, o solo que Deus preparou frutificará.

Jesus - A Simples Verdade

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Sombras Iluminadas Pregando a Cristo com Base no Antigo Testamento



David Murray

Dr. David Murray é professor de Antigo Testamento e de Teologia Prática. Murray é nascido em Glasgow, na Escócia, onde foi ordenado ministro evangélico. Obteve seu doutorado em ministério pelo Reformation International Theological Seminary. Atualmente é um dos catedráticos do PRTS, nos EUA. Murray é casado com Shona, com quem tem quatro filhos.

Sem dúvida, a pregação do Antigo Testamento passa por uma crise muito difundida hoje; conseqüentemente, a pregação de Cristo com base no Antigo Testamento está na mesma situação. Prega-se cada vez menos sermões a respeito dessa parte da Bíblia, e aqueles que são pregados não parecem exigir o mesmo interesse ou respeito que os sermões do Novo Testamento exigem.

Várias pesquisas têm constatado que apenas 20% dos sermões cristãos dizem respeito ao Antigo Testamento. Michael Duduit, editor da revistaPreaching (Pregação), lamentou o fato de receber “anualmente centenas de manuscritos de sermões de ministros de várias denominações protestantes... e menos de um décimo dos sermões enviados à Preaching se baseia em textos do Antigo Testamento”.1 Os relativamente poucos sermões do Antigo Testamento pregados são, com frequência, tópicos em vez de textuais ou contextuais.

Esse desequilíbrio na dieta espiritual da maioria dos cristãos é uma das principais razões dos problemas espirituais da igreja moderna e do cristão moderno. Uma pergunta desafiadora foi apresentada por Gleason Archer: “Como os pastores cristãos esperam alimentar seu rebanho com uma dieta espiritual balanceada, se negligenciam completamente os 39 livros das Escrituras Sagradas dos quais Cristo e todos os autores do Novo Testamento receberam sua própria nutrição espiritual?”2

Consideraremos brevemente oito razões que estão por trás desse infortúnio.

1. Liberalismo

Em primeiro lugar, o Antigo Testamento tem sido alvo de prolongado e contínuo ataque crítico da parte de eruditos liberais. Isso tem abalado a confiança tanto de pregadores como de ouvintes quanto a essa parte das Escrituras Sagradas.

2. Ignorância

É quase impossível pregar sobre passagens extensas do Antigo Testamento sem um conhecimento do contexto histórico e do ambiente geográfico. Contudo, houve um tempo em que esse conhecimento era difundido em muitas igrejas, mas agora muitos ouvintes sabem pouco ou nada sobre história bíblica, e os pregadores acham difícil torná-la interessante para seus ouvintes.

3. Relevância

Além disso, os detalhes históricos e geográficos parecem distanciar o pregador e o ouvinte da realidade moderna. O fato é que estamos a aproximadamente 6.000 anos do acontecimento mais antigo registrado no Antigo Testamento e a mais de 2.000 anos de seu acontecimento mais recente. Isso abre um “intervalo de relevância” na mente de muitos pregadores e ouvintes da atualidade. Tal situação é intensificada pelo fato de o Novo Testamento deixar claro que muitas práticas do Antigo Testamento acabaram. Então, por que estudá-las?

4. Dispensacionalismo

A teologia dispensacionalista, com sua divisão rígida das Escrituras em eras e métodos de salvação diferentes, tende a relegar o Antigo Testamento a um papel inferior na vida da igreja e do cristão individual. Entretanto, é surpreendente quantos pregadores mesmo nos círculos reformados possuem um dispensacionalismo latente, que se torna óbvio em sua opinião confusa e inconsistente da salvação no Antigo Testamento – contendo idéias que vão desde a salvação por obras, bem como a salvação pela fé nos ritos sacrificiais, até à salvação mediante uma fé geral em Deus acompanhada de uma tentativa sincera de obedecer à sua lei. Essas opiniões legalistas da salvação no Antigo Testamento produzem inevitavelmente menos pregação dessa parte das Escrituras e, certamente, menos pregação de Cristo e da sua graça com base no Antigo Testamento.

5. Prática Ruim

Temos de admitir que uma das razões por que tantas pessoas, até em igrejas reformadas e evangélicas, minimizam a Cristo no Antigo Testamento é que elas têm visto muitos maus exemplos de pregação sobre o Salvador alicerçada em textos do Antigo Testamento – exemplos que expõem toda a prática da proclamação da Palavra ao ridículo justo de um mundo zombeteiro e cínico. Contudo, a prática ruim de alguns não deveria levar à falta de prática de outros.

6. Preguiça

Pregar Cristo com base no Antigo Testamento é mais exigente do que fazê-lo com base no Novo Testamento. Preparar e apresentar sermões do Antigo Testamento centrados em Cristo, de maneira compreensível e atrativa, requer mais trabalho mental e espiritual – especialmente quando não temos prática na arte. Para um pastor ocupado na preparação de dois ou três sermões por semana, os caminhos já bem trilhados do Novo Testamento parecem mais convidativos do que Levítico, 2 Crônicas ou Naum!

7. Falta de Exemplos

Muitos pastores sinceros e dedicados querem pregar sobre textos do Antigo Testamento e sentem-se culpados por sua falha em fazê-lo. Entretanto, quando olham ao seu redor, procurando modelos de pregação que possam seguir, eles encontram poucos homens de cuja prática podem aprender. Então, na falta da prática estimulante, eles procuram princípios de interpretação que lhes ensine a prática; mas isso também está faltando.

8. Credibilidade Acadêmica

Finalmente, existe nos círculos acadêmicos (até entre os reformados e evangélicos) uma tendência de minimizar o lugar do Filho de Deus no Antigo Testamento. Cristo está sendo excluído das muitas passagens do Antigo Testamento, com a aprovação da comunidade erudita. E poucos são bastante corajosos para correr o risco e questionar essa tendência. Pouco nos surpreende o fato de que pregadores se afastam do Antigo Testamento e se dirigem ao Novo Testamento a fim de “encontrar Jesus” e “pregar a Cristo crucificado”.

Então, qual é a solução para essa crise na pregação do Antigo testamento? Como podemos lutar contra essas tendências e até invertê-las? Bem, temos de atacar em todas as frentes. Devemos combater os liberais, ensinar às nossas congregações história e geografia bíblicas, ao mesmo tempo que demonstramos a relevância permanente do Antigo Testamento. Devemos resistir tanto ao dispensacionalismo patente quanto ao latente. Temos de identificar e evitar a prática ruim, embora ela pareça bastante convidativa. Devemos estar dispostos a gastar horas, suor, trabalho árduo e lágrimas, enquanto abrimos essa terra dura e não lavrada. Temos de procurar bons modelos de pregação, valorizá-los e aprender com eles. E, na ausência desses modelos, devemos buscar princípios bíblicos de interpretação que guiem nossa prática. Finalmente, devemos, com fé, manter-nos de pé diante do tanque de guerra da comunidade acadêmica e recusar-nos a deixá-los tirar Cristo do Antigo Testamento.

No entanto, o primeiro passo é estabelecer um alicerce forte de pressuposições bíblicas para apoiar todos os nossos sermões do Antigo Testamento. E devemos começar voltando-nos ao Novo Testamento. Ora, talvez pareça estranho começar um artigo sobre “Pregando a Cristo com base no Antigo Testamento” por voltar-nos ao Novo Testamento. Entretanto, começar com o Novo Testamento é o passo mais importante de todos, se queremos pregar corretamente a Cristo com base no Antigo Testamento. Deixar de fazer isso é uma das principais razões, ou talvez a principal razão, por que temos hoje tantos sermões sobre o Antigo Testamento nos quais Cristo não é mencionado.

Muitos vêem Cristo simplesmente como o “ponto final” do Antigo Testamento, o destino do Antigo Testamento. E, de fato, Ele é isso. Contudo, Ele também é o “ponto de partida” do Antigo Testamento, Aquele com quem devemos começar quando analisamos o Antigo Testamento. Com isso, estamos dizendo que devemos começar com o ponto de vista de Cristo sobre o Antigo Testamento. Neste artigo, seguiremos o seu exemplo por considerarmos as suas palavras na estrada de Emaús (Lc 24.25-32).

O ponto de vista de Cristo sobre o Antigo Testamento

Juntemo-nos aos dois discípulos na estrada de Emaús (Lc 24.25-32) e observemos três pontos:

  1. Tolice e Ignorância
  2. Interpretação Plena
  3. Discernimento da Fé

1. Tolice e Ignorância

Você já deve estar familiarizado com o contexto desse encontro na estrada de Emaús. Cristo foi crucificado numa sexta-feira. No domingo seguinte, dois homens do seu círculo de discípulos mais amplo decidiram deixar Jerusalém e viajar para Emaús, que ficava a cerca de onze quilômetros de Jerusalém. À media que conversavam “a respeito de todas as coisas sucedidas” (v. 14) e “discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles” (v. 15). Todavia, eles foram impedidos por Deus de reconhecê-lo naquele momento (v. 16). Jesus observou a postura deprimida e o rosto entristecido deles e perguntou-lhes qual era a causa de sua tristeza (v. 17). Eles prosseguiram fazendo um relato sobre a vida e o caráter de Cristo (v. 19), os seus sofrimentos e a sua morte (v. 20), o conseqüente desapontamento deles com Jesus (v. 21) e, devido à falta de evidências físicas, o ceticismo deles quanto aos rumores de uma ressurreição (v. 21).

Havendo escutado pacientemente a história deles até esse ponto, Cristo interveio com uma repreensão da ignorância e da descrença deles: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lc 24.25-26). Jesus lhes disse que o relato deles sobre a vida e a morte de Cristo igualava-se exatamente às predições dos profetas do Antigo Testamento. Eles acreditavam em alguns escritos dos profetas – as partes que falavam da glória do Messias. Entretanto, não acreditavam em tudo que os profetas haviam falado – especialmente, os trechos referentes aos sofrimentos e à morte do Messias. Portanto, Jesus os repreendeu por sua tolice e ignorância. A palavra grega traduzida por “néscio” é anoetos, denotando um indivíduo que vê coisas a partir de um ponto de vista distorcido. Em seguida, Jesus passou a expor o ponto de vista divino sobre a sua própria morte, ao mostrar, com base nas Escrituras do Antigo Testamento, que o Messias tinha de sofrer tais coisas e, somente depois disso, entrar em sua glória.

Quanta tolice – acreditar apenas numa parte do que Deus revelou pelos profetas! Quanta ignorância – desconhecer a necessidade dos sofrimentos do Messias, apesar de tudo que foi revelado no Antigo Testamento! Matthew Henry disse:

Jesus não os culpa tanto pela lentidão deles em acreditar no testemunho das mulheres e dos anjos, como os culpa por aquilo que causava isso: a lentidão deles em acreditar nos profetas; pois, se houvessem dado aos profetas do Antigo Testamento a devida importância e consideração, estariam tão certos da ressurreição de Cristo dentre os mortos naquela manhã (sendo o terceiro dia após sua morte) como estavam certos do nascer do sol.3

Eles esperavam outra redenção gloriosa semelhante à de Êxodo, mas ignoravam o sacrifício do Cordeiro Pascal que precedeu aquela redenção. Esperavam o glorioso e final reino davídico, mas ignoravam a perseguição homicida sofrida por Davi que precedeu o reino. Esperavam o rei profetizado em Isaías 53.12, que seria vitorioso e repartiria os despojos com os poderosos, mas haviam esquecido o Servo que sofreria e levaria o pecado, em precedência a essa vitória.

2. Interpretação Plena

Havendo repreendido a tolice e a ignorância dos dois discípulos, Cristo lhes deu uma interpretação completa do Antigo Testamento à luz dos acontecimentos recentes. Observe isso! É absolutamente decisivo. Cristo usou a luz do Novo Testamento para interpretar as Escrituras do Antigo Testamento. Em outras palavras, contrariando muitas das teorias humanistas da hermenêutica e da homilética moderna, Cristo viu a si mesmo no Antigo Testamento. Ele usou a luz dos acontecimentos do Novo Testamento para pregar sobre o Antigo Testamento. Veremos isso em detalhes.

O sermão que Cristo apresentou nessa ocasião, com base no Antigo Testamento, poderia ser intitulado Fatos Concernentes a Ele Mesmo. Tinha dois pontos principais: os sofrimentos de Cristo e a glória de Cristo. Nesses pontos, observe três estágios de desenvolvimento: “Começando por Moisés”, Ele discorreu por “todos os profetas” e expôs “todas as Escrituras” (v. 27). Um pouco depois (v. 44), Lucas mencionou um incidente semelhante em que Cristo interpretou o Antigo Testamento com o benefício da luz do Novo Testamento, usando mais uma vez esses três estágios.

Entretanto, retornemos aos dois pontos principais deste sermão em que Cristo prega Fatos Concernentes a Ele Mesmo com base no Antigo Testamento – seus sofrimentos e sua glória. Como amaríamos ter esse sermão preservado para nós nas Escrituras! Que textos específicos Ele aplicou a si mesmo? Que tipos Ele explicou? O texto bíblico não nos diz. Por que o Espírito Santo omitiu deliberadamente esses detalhes? Bem, alguns estudiosos nos dizem que só devemos pregar tipos do Antigo Testamento que são especificamente identificados como tais pelo Novo Testamento. Essa restrição severa e racionalista, criada por homens, teria sido aplicada também a esse incidente, se alguns dos detalhes do sermão de Cristo nos houvessem sido revelados. Seríamos proibidos de pregar com base em qualquer versículo do Antigo Testamento que não tivesse sido especificamente mencionado por Cristo nessa ocasião. Em vez disso, o silêncio permite que a fé medite sobre o possível conteúdo das três partes do Antigo Testamento: a Lei, os Profetas e os Escritos.

a. Os sofrimentos de Cristo

Se houve uma característica suprema do Antigo Testamento, essa foi o sangue – especificamente, o sangue de sacrifícios. As alianças com Adão, Noé, Abraão e Moisés foram todas inauguradas com sangue de sacrifícios. A aliança com Davi foi inaugurada com advertências de derramamento de sangue para os transgressores (2 Sm 7.14). Os ritos e as cerimônias religiosas do Antigo Testamento eram fartas de sangue sacrificial. O tabernáculo e o templo eram ensopados de sangue sacrificial. Se as Escrituras do Antigo Testamento eram proféticas, como realmente eram, quem poderia imaginar que o cumprimento encarnado desses tipos seria sem sangue?

Outro tema de grande importância no Antigo Testamento era o padrão de “sofrimento antes do triunfo” nos seus principais personagens: Noé, Abraão, Jacó, Moisés, Davi, Jonas. Quem vê esse padrão repetido na vida dos santos piedosos do Antigo Testamento, alguns dos quais existiram especificamente como tipos do Messias (por exemplo: Moisés, Davi), e não conclui que a vida do Messias seguiria um padrão semelhante?

Além disso, quantos salmos – o próprio enredo da vida espiritual de Israel – apresentam o ciclo de chorar durante a noite, antes de a alegria vir pela manhã (por exemplo: Salmos 22; 52-60; 69)?

Não admiramos que Cristo tenha perguntado: “Não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória?” (Lc 24.26).

b. A glória de Cristo

Cristo não teve de convencer os discípulos de que o Messias seria glorificado. Contudo, eles diferiam de Jesus em seu ponto de vista sobre o que constituía a “glória”. Não há dúvida de que a glória do Messias foi apresentada no Antigo Testamento por meio de emblemas e símbolos de glória terrena: coroas, cetros, mantos, tronos, oficiais, servos, louvor, poder militar, etc. Não havia nenhuma dessas coisas quando Cristo caminhava na estrada para Emaús. No entanto, Ele sugeriu, conforme lemos no versículo 26, que já havia entrado em “sua glória”. Portanto, grande parte do sermão de Cristo, nessa ocasião, deve ter envolvido a explicação de realidades espirituais que estavam por trás do simbolismo terreno, a fim de mostrar que seu reino não era “deste mundo”, que sua glória era primariamente espiritual e celestial, que seu trono estava “dentro deles” e suas armas mais poderosas eram a Palavra e o Espírito Santo.

3. Discernimento da Fé

É provável que nenhuma outra viagem tenha se passado tão rápido! Quando parecia que o companheiro de viagem daqueles discípulos estava para separar-se deles, nos limites de Emaús, não nos surpreendemos ao ler que o constrangeram a ficar com eles e continuar o estudo bíblico. Obtendo sucesso em persuadi-lo, sentaram-se para comer. Em seguida, “tomando ele [Jesus] o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, lhes deu; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram; mas ele desapareceu da presença deles” (vv. 30-31). Os discípulos olharam um para o outro, refletiram sobre sua viagem recente e disseram: “Porventura, não nos ardia o coração, quando ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (v. 32). Consideremos os três estágios dessa “ardência espiritual no coração”.

a) Jesus abriu as Escrituras

O que Cristo encontra quando abre a porta de Gênesis; depois, de Êxodo, de Levítico...? Encontra a si mesmo! Matthew Henry disse: “O próprio Jesus Cristo é o melhor expositor das Escrituras, particularmente das Escrituras concernentes a Ele mesmo”.4 Se Ele nos diz que pode ser encontrado desde o primeiro livro das Escrituras, “começando por Moisés”, então, que o encontremos ali. Negar a sua presença nesses livros é fingir ser um exegeta das Escrituras melhor do que Aquele que as inspirou!

Nesse encontro em Emaús, aprendemos os princípios mais fundamentais de interpretação do Antigo Testamento: os acontecimentos anteriores e posteriores a Cristo têm o seu significado nEle. J. C. Ryle salientou isso em seu comentário sobre esses versículos:

Ao ler a Bíblia, devemos ter em nossa mente o firme princípio de que Cristo é o assunto central de todas as Escrituras. Enquanto O mantemos diante de nossos olhos, jamais cometeremos grandes erros em nossa busca por conhecimento espiritual. Se O perdermos de vista, acharemos a Bíblia inteira um livro obscuro e cheio de dificuldades. Jesus Cristo é a chave do conhecimento bíblico.5

Graeme Goldsworthy foi ainda mais incisivo ao escrever:

Quando chegamos a compreender o Novo Testamento à luz do que vem antes, no Antigo Testamento, entendemos que é a revelação mais plena e a palavra final de Deus em Cristo que dão significado a todas as coisas. Cristo e, portanto, o Novo Testamento interpretam o Antigo Testamento.6

O Novo Testamento nos ensina a examinar o Antigo Testamento com olhos cristãos, nos ensina a estudá-lo à luz do evangelho. Goldsworthy prossegue explicando como navegar nessa exegese “para-trás-e-para-frente”:

Não começamos em Gênesis 1 e continuamos para frente até descobrirmos aonde estamos sendo levados. Em vez disso, primeiro vamos a Cristo, e Ele nos direciona a estudar o Antigo Testamento à luz do evangelho. O evangelho interpretará o Antigo Testamento por mostrar-nos seu objetivo e significado. O Antigo Testamento aumentará nossa compreensão do evangelho por mostrar-nos o que Cristo cumpre.7

Desde o nosso ponto de partida com Cristo, movemo-nos para trás e para frente entre os dois Testamentos. Nosso entendimento do evangelho é aprimorado pela nossa compreensão de suas raízes no Antigo Testamento, e, ao mesmo tempo, o evangelho nos mostra o verdadeiro significado do Antigo Testamento. Seria difícil delinear essa inter-relação entre os dois Testamentos em uma teologia bíblica escrita. Contudo, devemos tentar fazer isso por enfatizarmos a Cristo tanto como nosso ponto de partida como o alvo em direção ao qual nos movemos. Cristo é o lugar onde começamos porque nos mostra com o que realmente se preocupa a mensagem revelada do Antigo Testamento.8

Vern Poythress é, também, um forte defensor desse movimento “Novo e Antigo” na interpretação do Antigo Testamento. Ele escreveu:

Se estou certo em pensar que o Novo Testamento completa a história que Deus iniciou no Antigo Testamento, é bastante oportuno que agora eu olhe para trás, à luz da história completa, e veja o que mais posso aprender com sua primeira metade.9

b) Jesus abriu os olhos deles

Os dois discípulos não eram cegos. Eles viram Cristo com seus olhos físicos. Potanto, essa ação de abrir os olhos não significa conceder visão física, e sim visão espiritual. Além de abrir as Escrituras para eles, Cristo abriu-lhes os olhos da fé, que estavam temporariamente fechados.

Esse abrir os olhos parece estar associado com o partir o pão e o dar graças. Embora esses dois homens “do círculo de discípulos mais amplo” provavelmente não estivessem no cenáculo quando a ceia do Senhor foi instituída, talvez os outros discípulos “do círculo mais restrito” lhes falaram sobre a Ceia. De repente, eles perceberam que estavam sentados à Ceia do Senhor, quando Ele partiu o pão. É possível que tenham reconhecido a maneira como Ele se portava à mesa, maneira com a qual estavam familiarizados. Contudo, é mais provável que tenham visto as marcas dos cravos nas mãos do Senhor, quando ele partiu o pão. Não temos certeza. Tudo que sabemos é que agora viam seu companheiro de refeição sob uma luz completamente nova. E isso era obra do Senhor.

c) Jesus abriu o coração deles

Eles não o viram por muito tempo antes de desaparecer. Mas foi tempo suficiente para mudar toda a visão deles quanto ao mundo e ao seu passado recente. Enquanto refletiam sobre os privilégios espirituais desfrutados nas horas recentes, começaram a reconhecer que a fé tivera seu início na estrada e florescera à mesa. Esses sentimentos estranhos, aquele afeto incomum, a empolgação espiritual que sentiram, à medida que Jesus expunha as Escrituras, na estrada, era a fé sendo alimentada, nutrida e despertada de seu estupor. Michael Barrett resumiu isso assim:

O problema era dureza de coração. A necessidade era um estudo cristocêntrico das Escrituras do Antigo Testamento.10

Agora, eles não comparavam mais observações, e sim corações, enquanto reconsideravam o sermão de Cristo na estrada. Seu coração frio fora aquecido. Seu coração sombrio havia sido iluminado. Seu coração embaçado começara a brilhar mais uma vez. Seus planos de passar a noite naquele lugar foram desfeitos. Precisavam contar aos outros, não no dia seguinte, e sim naquela mesma noite. Eles não se preocuparam com a escuridão, com o perigo, com a distância. Retornaram imediatamente a Jerusalém, com o coração ardente, proclamando: “O Senhor ressuscitou!” (Lc 24.34).

Princípios de Interpretação

  • Cristo está presente, revelado e deve ser buscado em cada livro do Antigo Testamento, de Gênesis a Malaquias.
  • Textos do Antigo Testamento devem ser interpretados pelo acontecimento definitivo do evangelho.
  • Cristo é o ponto de partida para a interpretação do Antigo Testamento.





Fonte: Editora Fiel

Jesus - A Simples Verdade

domingo, 16 de outubro de 2011

As Doutrinas da Graça e a Paixão pelas Almas dos Homens





John A. Broadus


A preocupação com a salvação dos outros não é anulada pela crença naquilo que chamamos “As Doutrinas da Graça”. Tal preocupação não diminui por crermos na soberania divina, na predestinação e na eleição. Muitas pessoas demonstram intensa antipatia às idéias expressas nestes últimos vocábulos. Recusam-se a aceitá-las, porque, em suas mentes, tais idéias estão associadas ao conceito de indiferença apática. Estas pessoas dizem que, se a predestinação é verdadeira, conclui-se que um homem não pode fazer nada por sua própria salvação; se tiver de ser salvo, ele o será, não podendo fazer coisa alguma para isso, nem ele nem qualquer outra pessoa precisa se importar com isso.

Mas isto não é verdade; eu o provarei mediante o fato de que o próprio Paulo, o grande porta-voz dessas doutrinas nas Escrituras, pronunciou essas palavras de interesse e amor ardente, em favor da salvação dos outros, vinculando-as intimamente às passagens em que ele ensinou as doutrinas da graça. Volte os seus olhos a algumas frases anteriores a Romanos 9.3 e encontrará a própria passagem sobre a qual muitos tropeçam. “E aos que predestinou” — muitas pessoas estremecem ao ouvir essas palavras — “a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou” (Rm 8.30).

Apenas um pouco depois de Paulo ter proferido essas palavras, das quais muitos pretendem inferir a idéia de que, crendo nelas, o homem não precisa se preocupar com a sua salvação ou com a salvação dos outros, vieram aquelas palavras cheias de paixão que constituem nosso versículo texto. E isso não é tudo, pois você encontrará logo em seguida, o texto onde Paulo falou sobre Esaú e Jacó, afirmando que Deus estabeleceu uma diferença entre eles, antes mesmo de nascerem, e onde disse, a respeito de Faraó, que Deus o havia levantado para demonstrar o Seu poder e declarar o Seu nome em toda a terra. “Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.” Algumas boas pessoas chegam a estremecer diante da inferência que lhes parece inevitável de uma linguagem como esta. Mas eu digo que esta inferência deve estar errada, pois o homem inspirado, que proferiu essas palavras, apenas alguns momentos antes havia pronunciado as palavras de nosso versículo texto.

E, sempre que você perceber que seu coração ou o coração de um amigo está propenso a fugir desses grandes ensinamentos das Escrituras divinas, com relação à soberania e a predestinação, então eu oro para que você não discuta sobre isto, mas que se volte a esse texto bíblico, expresso em linguagem de tão grande preocupação em favor da salvação dos outros, de forma tão intensamente cheia de paixão, que os homens se admirarão e certamente dirão que tais palavras não podem significar o que elas realmente dizem. O problema é que neste caso, e em muitos outros, tiramos inferências sem fundamento dos ensinamentos da Palavra de Deus e jogamos todo o nosso ódio para com essas inferências sobre as verdades que delas extraímos. Ora, qualquer coisa considerada como verdade, a favor ou contra a doutrina do apóstolo acerca da predestinação e da soberania divina na salvação, eu afirmo que isto não torna um homem indiferente à sua própria salvação e à salvação dos outros; este não foi o efeito sobre Paulo, e entre essas duas grandes passagens encontram-se as maravilhosas palavras de nosso versículo texto.

Jesus - A Simples Verdade


sábado, 15 de outubro de 2011

Alguém Foi Salvo na Cruz?

James White

“Afirmamos que Cristo morreu para assegurar a salvação de uma tão grande quantidade de pessoas que ninguém é capaz de enumerar, pessoas que mediante a morte de Cristo não somente podem ser salvas, mas são salvas, têm de ser salvas; e não existe a possibilidade de, por meio de qualquer casualidade, elas serem outra coisa, exceto pessoas salvas” (Charles Haddon Spurgeon).

Houve um tempo em que eu me qualificava como um “calvinista de quatro pontos”. Existem muitos que utilizam essa expressão e, durante quase todo aquele tempo, o único ponto que eu rejeitava era o da “expiação limitada”. Existe algo nessas palavras que não soa corretamente. Como pode a expiação realizada por Cristo ser limitada? Isso é exatamente o que eu pensei quando comecei a meditar com seriedade sobre todo o assunto. A minha experiência é que muitos dos que rejeitam a expiação limitada ou específica de Cristo realmente não crêem na completa soberania de Deus, na total depravação do homem e na eleição incondicional da parte de Deus. Muitas das objeções apresentadas contra essa doutrina são objeções a algum dos assuntos que acabamos de mencionar, e não contra a própria expiação limitada. A “quebra” em minha maneira de pensar resultou da leitura do livro de Edwin Palmer, Os Cinco Pontos do Calvinismo (The Five Points of Calvinism; Grand Rapids, Baker Book House, 1980, pp. 41-55). Ao realizar uma transmissão de rádio a respeito da verdade da graça eletiva de Deus, um ouvinte desafiou-me em relação à morte de Cristo. “Por que Cristo morreu em favor de todo o mundo, se Deus não tencionava salvar todos?” Olhei para meu companheiro de programa, ele olhou para mim; fiz uma decisão mental de estudar mais sobre aquele assunto em particular. Logo que voltei para casa, peguei o livro de Edwin Palmer e comecei o capítulo que se referia à obra de expiação realizada por Cristo.

Tornei-me um calvinista de “cinco pontos”, ao ler a seguinte seção:

“A pergunta que necessita de uma resposta exata é esta: Cristo realmente fez ou não fez um sacrifício vicário pelos pecados? Se Ele o fez, não foi em favor de todo o mundo, pois, se assim fosse, todo o mundo seria salvo” (Palmer, Os cinco Pontos do Calvinismo, p. 47).

Fui confrontado com uma decisão. Se eu continuasse afirmando uma expiação “universal”, ou seja, se eu dissesse que Cristo morreu vicariamente no lugar de todo homem e toda mulher no mundo inteiro, seria obrigado a dizer: 1) que todos seriam salvos; 2) que a morte de Cristo não foi suficiente para salvar sem obras adicionais. Eu sabia que não estava disposto a crer que a morte de Cristo não podia salvar sem as obras humanas. Por conseguinte, eu tive de entender que a morte de Cristo foi realizada em favor dos eleitos de Deus e que ela realiza seu propósito: salva aqueles em favor dos quais ela aconteceu. Nesse ponto, compreendi que durante todo o tempo havia “limitado” a expiação. Na verdade, se você não crê na doutrina reformada da “expiação limitada”, você crê em alguma forma de expiação limitada! Como pode ser isso? A menos que você seja um universalista (ou seja, crê que todas as pessoas serão salvas), então, você crê que a expiação realizada por Cristo, se foi realizada em favor de todos os homens, é limitada em seus efeitos. Você crê que Cristo morreu em favor de alguém e, apesar disso, aquela pessoa pode ficar perdida por toda a eternidade. Você limita o poder e o efeito da expiação. Eu limito o escopo da expiação, enquanto afirmo que seu poder e efeito são ilimitados! Um escritor expressou isso muito bem, quando disse:

“Não deve haver qualquer mal-entendido quanto a este assunto. O arminiano limita a expiação assim como o faz o calvinista. Este limita a extensão da expiação quando afirma que ela não se aplica a todas as pessoas... o arminiano, por sua vez, limita o poder da expiação, pois ele afirma que ela não salva ninguém. O calvinista limita quantitativamente a expiação, mas não qualitativamente; o arminiano limita-a qualitativamente, mas não quantitativamente. Para o calvinista, a expiação é como uma ponte estreita que segue em todo o caminho por cima do rio; para o arminiano, a expiação é como uma ponte larga que vai somente até metade do caminho. Na realidade, o arminiano coloca mais limitações severas na obra de Cristo do que o faz o calvinista” (Lorraine Boettner, The Reformed Doctrine of Predestination [A Doutrina Reformada da Predes-tinação]; Philipsburg, New Jersey, Presbiterian and Reformed Publish-ing Company, 1932, p. 153).

Não estamos falando sobre apresentar alguma terrível limitação na obra de Cristo, quando nos referimos à “expiação limitada”. Na verdade, estamos realmente apresentando um ponto de vista mais elevado sobre a obra de Cristo no Calvário, quando dizemos que a morte de Cristo realiza alguma coisa na realidade e não apenas na teoria. A expiação, nós cremos, foi autêntica, vicária e substitutiva; ela não foi uma expiação possível e teórica que, para ser eficaz, depende da ação do homem. E, quando alguém compartilha o evangelho com pessoas envolvidas em falsas religiões, eu afirmo que a doutrina bíblica da expiação realizada por Cristo é uma verdade poderosa e a única mensagem capaz de causar verdadeiro impacto em lidar com os muitos ensinos heréticos sobre a pessoa de Cristo apresentados em nossos dias. Jesus Cristo morreu em favor daqueles que o Pai, desde a eternidade, decretou que salvaria. Existe absoluta unidade entre o Pai e o Filho na salvação do povo de Deus. O Pai decretou a salvação deles, o Filho morreu no lugar deles, e o Espírito os santifica e os conforma à imagem de Cristo. Esse é o testemunho coerente das Escrituras.

O Intento da Expiação

Por que Cristo veio ao mundo para morrer? Ele veio simplesmente para tornar a salvação possível? Ou Cristo veio para obter a eterna redenção (Hebreus 9.12)? Consideremos algumas passagens das Escrituras para responder essas perguntas.

“Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o perdido” (Lucas 19.10).

Nesse versículo, o Senhor Jesus mesmo falou sobre a razão de sua vinda — buscar e salvar o perdido. Poucos vêem problema no vir de Jesus; muitos têm dificuldade com a idéia de que Ele realmente realizou toda a sua missão. No entanto, Jesus deixou claro que viera para salvar o perdido. Ele fez isso por intermédio de sua morte.

“Fiel é a palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Timóteo 1.15).

Paulo afirmou que salvar pecadores foi o propósito da vinda de Cristo ao mundo. Nada nas palavras do apóstolo Paulo nos leva à conclusão que é tão popular em nossos dias — a morte de Cristo simplesmente torna a salvação em uma possibilidade, ao invés de torná-la uma realidade. Cristo veio para salvar. Foi isso mesmo que Ele fez? Então, como Ele o fez? Não foi por intermédio de sua morte? Com toda a certeza. A morte expiatória de Cristo outorga perdão de pecados para todos aqueles em favor dos quais ela aconteceu. Essa é a razão por que Cristo veio ao mundo.

A Obra Intercessória de Cristo

“Este, no entanto, porque continua para sempre, tem o seu sacerdócio imutável. Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles. Com efeito, nos convinha um sumo sacerdote como este, santo, inculpável, sem mácula, separado dos pecadores e feito mais alto do que os céus” (Hebreus 7.24-26).

O Novo Testamento relaciona de maneira íntima a obra de Cristo como nosso Sumo Sacerdote e Intercessor com a sua morte sobre a cruz. Nessa passagem de Hebreus, somos ensinados que o Senhor Jesus, devido ao fato de que Ele vive para sempre, possui um sacerdócio permanente e imutável. Ele não é semelhante aos

antigos sacerdotes que morriam; o Senhor Jesus é um perfeito sacerdote, porque permanece para sempre. Por causa disso, Jesus é capaz de salvar totalmente os que por Ele

se achegam a Deus. Por quê? Porque Ele vive sempre para interceder por eles.

Ora, antes de considerarmos a relação entre a morte de Cristo e a sua intercessão, desejo enfatizar o fato de que a Bíblia afirma a capacidade de Cristo para salvar totalmente o homem. Ele não está limitado a um papel secundário como o grande Auxiliador que torna possível o homem salvar a si mesmo. Aqueles que se achegam a Deus por intermédio de Cristo encontrarão nEle uma salvação abundante e completa. Além disso, temos de recordar que Cristo intercede por aqueles que se achegam a Deus. Sinto que é óbvio o fato de que Cristo não intercede por aqueles que não se aproximam de Deus por intermédio dEle. A intercessão de Cristo se realiza em favor do povo de Deus. Logo veremos o quanto isso é importante.

Sobre que fundamento Cristo intercede diante do Pai? Ele comparece na presença de Deus e Lhe suplica que esqueça sua santidade, sua justiça e simplesmente ignore os pecados dos homens? É claro que não. O Filho intercede diante do Pai fundamentado em sua própria morte. A inter- cessão de Cristo repousa sobre o fato de que Ele morreu como substituto do povo de Deus; e, visto que o Senhor Jesus levou sobre o seu corpo os pecados de seu povo, na cruz (1 Pedro 2.24), Ele pode apresentar sua oferta diante do Pai em lugar deles e, com base na sua morte, interceder em favor deles. O Filho não pede que o Pai comprometa a sua santidade ou simplesmente ignore o pecado. Cristo cuidou do pecado na cruz. Conforme lemos em Hebreus 9.11-12:

“Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção”.

Quando Cristo entrou no Santo dos Santos, Ele o fez “pelo seu próprio sangue”. Ao realizar isso, somos informados que obteve “eterna redenção”. Novamente, essa não é uma afirmação teórica, e sim a declaração de um fato. Cristo não entrou no Santo dos Santos para tentar conseguir a redenção para seu povo! Ele entrou ali depois de já ter conseguido a redenção. Então, o que Ele está fazendo agora? A sua obra de intercessão é outra obra que se realiza independentemente de sua morte sacrificial? A morte de Cristo é ineficaz sem esta “outra” obra? A intercessão de Cristo não é uma segunda obra, independente de sua morte. Pelo contrário, Cristo está apresentando diante do Pai o seu perfeito e completo sacrifício. Ele é o nosso Sumo Sacerdote, e o sacrifício que Ele oferece em nosso lugar é o seu próprio sacrifício. Ele é o nosso Advogado, como disse o apóstolo João:

“Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro” (1 João 2.1-2). [Essa passagem freqüentemente é utilizada para negar a expiação específica de Cristo; mas, quando consultamos a passagem correspondente em João 11.51-52, se torna evidente que João tencionava que a palavra “mundo” fosse entendida no mesmo sentido em que é explicado para nós em Apocalipse 5.9-11, onde a morte de Cristo comprou homens de “toda tribo, língua, povo e nação”, ou seja, de todo o mundo.]

A expiação realizada pela morte de Cristo está claramente vinculada à sua advocacia diante do Pai. Por essa razão, podemos reconhecer as seguintes verdades:

1) É impossível que o Filho não interceda por alguém em favor de quem Ele morreu. Se Cristo morreu como Substituto deles, como não poderia Ele apresentar seu próprio sacrifício em lugar deles diante do Pai? Podemos crer que Cristo realmente morreu por alguém que Ele não tencionava salvar?

2) É impossível que alguém em favor de quem Cristo não morreu receba a intercessão dEle. Se Cristo não morreu em favor de determinado indivíduo, como poderia Ele interceder por esse indivíduo, visto que não tem bases sobre as quais Ele pode buscar a misericórdia do Pai?

3) É impossível que se perca alguém em favor de quem Cristo intercede. Podemos imaginar o Filho rogando ao Pai, apresentando sua perfeita expiação em favor de uma pessoa que Ele deseja salvar, e o Pai rejeitando a intercessão do Filho? O Pai sempre ouve o Filho (João 11.42). O Pai não ouvirá as súplicas do Filho em favor de todos os que o Filho deseja salvar? Além disso, se cremos que Cristo pode interceder por alguém que o Pai não salvará, temos de crer que: a) há divisão na Divindade — o Pai deseja uma coisa, e o Filho, outra; b) o Pai é incapaz de fazer o que o Filho deseja que Ele faça. Ambas as idéias são completamente impossíveis.

Na oração sacerdotal de Cristo (João 17), podemos ver claramente que Ele não age como Sumo Sacerdote em favor de todos os homens. O Senhor Jesus distinguiu claramente entre o “mundo” e aqueles que, em toda a oração, são mencionados como pertencentes a Ele mesmo. E o versículo 9 ressalta fortemente esse argumento:

“É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus.”

Quando Cristo ora ao Pai, Ele não ora em favor do “mundo”, e sim em favor daqueles que Lhe foram dados do mundo, pelo Pai (João 6.37).

Por quem Cristo morreu?

Existem muitas passagens bíblicas que nos ensinam que o escopo da morte de Cristo limitou-se aos eleitos. Em seguida, apresentamos algumas delas.

“Tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mateus 20.28).

Os “muitos” em favor dos quais Cristo morreu são os eleitos de Deus, como Isaías havia dito muito tempo antes:

“O meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si” (Isaías 53.11).

O Senhor Jesus deixou claro que sua morte aconteceu em favor de seu povo, quando falou sobre o Pastor e as ovelhas.

“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida pelas ovelhas... assim como o Pai me conhece a mim, e eu conheço o Pai; e dou a minha vida pelas ovelhas” (João 10.11,15).

O Bom Pastor entregou a sua vida em favor das ovelhas. Todos os homens são ovelhas de Cristo? É claro que não, pois muitos homens não conhecem a Cristo, e Ele disse que as suas ovelhas O conhecem (Jo 10.14). Depois, Jesus falou especificamente aos judeus que não creram nEle: “Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas” (João 10.26). Devemos observar que, em contraste com a idéia de que, se cremos, nos tornamos ovelhas do Senhor Jesus, Ele disse que os judeus não creram porque não eram suas ovelhas. Se uma pessoa é uma ovelha de Cristo, esta é uma decisão do Pai (João 6.37; 8.47), e não da ovelha!

“Andai em amor, como também Cristo nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave... Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Efésios 5.2,25-27).

Cristo entregou-se a Si mesmo em favor de sua igreja, o seu corpo, com o propósito de purificá-la e torná-la seu corpo. Se este era seu propósito para com a igreja, por que Ele se entregaria por aqueles que não constituem a igreja? Ele não desejava santificar esses “outros” também? Mas, se Cristo morreu por todos os homens, há muitos, muitos, que permanecerão impuros durante toda a eternidade. A morte de Cristo foi insuficiente para purificá-los? É claro que não. Ele tinha outro objetivo em mente quando morreu por eles? [Não estou negando que a morte de Cristo teve efeitos para todos os homens e, na realidade, para toda a criação. Creio que a morte dEle é uma parte da “consumação de todas as coisas” em Cristo. Entretanto, estamos falando aqui apenas sobre o efeito salvífico da expiação vicária de Cristo. Alguém poderia argumentar que a morte de Cristo tem efeito sobre aqueles em favor de quem ela não tencionava ser um sacrifício expia-tório.] Não, o sacrifício de Cristo em favor da igreja resulta em sua purificação; isso era o que Cristo tencionava para todos em favor dos quais Ele morreu.

“Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (Romanos 8.32-34).

O Pai ofereceu seu Filho em nosso lugar. A quem se refere o pronome “nós” nesses versículos? O texto esclarece que são os eleitos do Pai, ou seja, “os eleitos de Deus”. Novamente, a obra intercessora de Cristo, à direita de Deus, é apresentada em perfeita harmonia com sua morte — aqueles em favor de quem Cristo morreu são os mesmos por quem Ele intercede. E, como essa passagem demonstra, se Cristo intercede por alguém, quem pode trazer acusação contra tal pessoa e esperar vê-la condenada? Portanto, reconhecemos o que já consideramos: Cristo morreu em lugar de alguém, Ele intercede por tais pessoas, que infalivelmente são salvas. A obra de Cristo é completa e perfeita. Ele é o Salvador poderoso, que jamais falha em realizar seu propósito.

“Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos” (João 15.13).

Todos os homens são amigos de Cristo? Todos possuem o nome dEle? Todos se prostram diante dEle e O aceitam como Senhor? Todos obedecem os mandamentos de Cristo (João 15.14)? Isso não acontece, portanto, todos eles não são amigos de Cristo.

“Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, o qual a si mesmo se deu por nós, a fim de remir-nos de toda iniqüidade e purificar, para si mesmo, um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras” (Tito 2.13-14).

Tanto o elemento de substituição da cruz (Cristo se entregou por nós) quanto o propósito (remir-nos... purificar) da crucificação foram vigorosamente apresentados a Tito. Se o propósito de Cristo era redimir e purificar aqueles em favor dos quais Ele morreu, porventura, isso não aconteceu?



“Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mateus 1.21).

Cristo salvará o seu povo dos pecados deles. Eu pergunto o que

Edwin Palmer me perguntou antes: Cristo realmente o fez? Cristo salvou ou não o seu povo?

“Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim;

e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim” (Gálatas 2.20).

Essa é a confissão peculiar de todo verdadeiro crente em Jesus. Nós morremos com Ele, nosso Substituto, Aquele que nos amou e se entregou em nosso lugar.

Temos visto que a Palavra de Deus nos ensina que Cristo morreu por muitos, por suas ovelhas, pela igreja, pelos eleitos de Deus, por seus amigos, por um povo zeloso de boas obras, por seu povo, por todos os crentes.

Purificados e Santificados

É provável que alguém poderia escrever muitos volumes com estudos sobre a expiação realizada por Cristo. Não é nosso propósito fazer isso neste artigo. Ao invés disso, concluiremos nosso breve exame das Escrituras com as palavras de Hebreus 10.10-14:

“Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas. Ora, todo sacerdote se apresenta, dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios, que nunca jamais podem remover pecados; Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus, aguardando, daí em diante, até que os seus inimigos sejam postos por estrado dos seus pés. Porque, com uma única oferta, aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados”.

Ao mesmo tempo que consideramos algumas razões lógicas para crermos na expiação limitada e vimos várias referências sobre a morte de Cristo em favor de seu povo, essa passagem de Hebreus, acima de todas as outras, para mim, transforma essa doutrina em um imperativo. Ouça com atenção o que essa passagem nos diz. Primeiramente, qual é o efeito do único sacrifício do corpo de Jesus Cristo? O que nos diz o versículo 10? “Temos sido santificados.” A língua grega usa o tempo perfeito nesse versículo, indicando uma ação completa realizada no passado. A morte de Cristo realmente nos tornou santos. Cremos nisso? A morte de Cristo verdadeiramente santifica aqueles em favor dos quais ela foi realizada? Ou simplesmente torna possível que eles se tornem santos? Essas perguntas não podem ser negadas com facilidade. O autor de He- breus prossegue descrevendo como esse Sacerdote, Jesus, assentou-se à direita de Deus, de maneira diferente do que acontecia aos antigos sacerdotes, que tinham de permanecer fazendo sacrifícios continuamente. Ao contrário disso, a obra de Cristo é perfeita e completa. Ele pode descansar, pois seu único sacrifício se tornou perfeito para todos aqueles que em suas vidas estão experimentando a obra santificadora da parte do Espírito Santo. Cristo os tornou completos, perfeitos. Esse vocábulo se refere a um término, um fim. Cremos que a morte de Cristo fez isso? Se percebemos com clareza este ensino das Escrituras, estamos dispostos a alterar nossa crença e nossos métodos de proclamar o evangelho, para ajustar-se à verdade?

Uma crença comum precisa ser apresentada quando transmitimos a verdade. Muitos que acreditam em uma expiação “universal” ou não-específica afirmam que, enquanto Cristo morreu por todos, sua expiação é eficaz somente para aqueles que crêem. Em outra oportunidade falaremos sobre o fato de que a própria fé é um dom de Deus, dada somente aos seus eleitos. Agora, ao responder esse argumento, queremos apenas referir-nos ao grande puritano John Owen:

“Poderia acrescentar esse dilema aos universalistas: Deus impôs a sua devida ira, e Cristo suportou as dores do inferno por todos os pecados de todos os homens, ou por todos os pecados de alguns homens, ou por alguns pecados de todos os homens. Se este último for correto — alguns pecados de todos os homens, isso significa que todos os homens têm alguns pecados pelos quais têm de responder a Deus, e, portanto, nenhum homem será salvo; pois, se Deus entra em juízo conosco, embora Ele o fizesse com toda a humanidade por apenas um pecado, nenhuma carne seria justificada diante dEle. ‘Se observares, Senhor, iniqüidades, quem, Senhor, subsistirá?’ (Salmo 130.3). Se a segunda opção for correta (o que nós afirmamos), isso significa que Cristo sofreu por todos os pecados de todos os eleitos no mundo. Se a primeira é correta, por que, então, todos os homens não se encontram livres da punição de todos os seus pecados? Você dirá: ‘Por causa de sua incredulidade, eles não crêem’. Mas esta incredulidade é pecado ou não? Se não é, por que eles devem ser punidos por sua causa? Se esta incredulidade é pecado, Cristo sofreu a punição devida a ela, ou não? Se Ele sofreu, então, por que esse pecado os impede, mais do que quaisquer outros pecados pelos quais Cristo morreu, de participar dos benefícios da morte dEle? Se Cristo não sofreu por esse pecado, isto significa que Ele não morreu por todos os pecados deles. Eles devem escolher que posição têm de assumir” (John Owen, A Morte da Morte na Morte de Cristo; Londres, Banner of Truth, 1985, pp. 61-62.)

Conclusão

Alguns rejeitam a doutrina da expiação limitada utilizando fundamentos bastante pragmáticos. “Essa doutrina destrói o evangelismo, porque você não pode dizer às pessoas que Cristo morreu por elas, visto que você não sabe disso!” Mas, perguntamos, existe alguma vantagem em apresentar uma expiação teórica, um Salvador cuja obra é incompleta e um evangelho que é apenas uma possibilidade? Que tipo de proclamação Deus honrará com seu Espírito: uma proclamação elaborada tendo em vista o “sucesso” ou uma proclamação que está presa à verdade da Palavra de Deus? Quando os apóstolos pregavam o evangelho, eles não diziam: “Cristo morreu por todos os homens de todos os lugares; agora cumpre a vocês tornarem eficaz a obra dEle”. Os apóstolos ensinavam que Cristo morreu pelos pecadores e que o dever de todo homem é arrepender-se e converter-se. Eles sabiam que somente a graça de Deus podia produzir arrependimento e fé no coração do homem. E, ao invés de ser um obstáculo à obra de evangelização dos apóstolos, essa mensagem era o poder que estava por trás da evangelização que eles realizavam. Eles proclamavam um Salvador “poderoso”, cuja obra é todo-suficiente e que salva total e completamente os homens! Os apóstolos sabiam que Deus estava trazendo os homens para Si mesmo, e, visto que Ele é o soberano do universo, não há poder no mundo que seja capaz de parar a sua mão! Ora, existe um fundamento sólido para a evangelização! E o que poderia ser mais estimulante para um coração dilacerado por culpa do que saber que Cristo morreu em favor de pecadores e que a obra dEle não é apenas teórica, e sim real?

A igreja precisa desafiar novamente o mundo com a proclamação ousada de um evangelho que é ofensivo — ofensivo porque fala sobre Deus que salva a quem Ele quer; ofensivo porque proclama um Salvador soberano que redime o seu povo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A Vontade de Deus e a Vontade do Homem



Horatius Bonar

No presente, existe grande controvérsia a respeito da vontade de Deus. Sobre este assunto surgem muitas perguntas. A principal delas refere-se à conexão entre a vontade de Deus e a vontade do homem. Qual a relação entre elas? Qual a ordem que uma ocupa em relação a outra? Qual delas está em primeiro lugar? Não existe qualquer debate sobre a existência dessas duas vontades. Deus possui uma vontade, e, igualmente, o homem. Elas se encontram em constante exercício — Deus quer, e o homem quer. Nada ocorre no universo sem a vontade de Deus. Todos admitem isso; mas surge a pergunta: a vontade de Deus é o primeiro fator em todas as coisas?

Eu respondo “sim”. Não pode haver qualquer coisa boa que Deus não desejou que existisse; não pode haver qualquer coisa má que Deus não desejou permitir. A vontade de Deus vem antes de todas as outras vontades. Aquela não depende destas, mas estas dependem daquela. O exercício da vontade de Deus regula as outras vontades. O “Eu quero” de Jeová é aquilo que põe em atividade todas as coisas no céu e na terra; é a fonte e a origem de tudo que, grande ou pequeno, ocorre no universo, entre as coisas animadas ou inanimadas. Este “Eu quero” trouxe os anjos à existência e os sustem até agora. Este “Eu quero” originou a salvação para um mundo perdido, providenciou um Redentor e realizou a redenção. Este “Eu quero” começa, desenvolve e conclui a salvação de cada alma redimida; abre os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos; desperta aquele que dorme e ressuscita os mortos. Não estou dizendo que Deus simplesmente declarou a sua vontade a respeito dessas coisas; estou afirmando que cada conversão e cada atitude que a constitui originou-se neste supremo “Eu quero”. Quando Jesus curou o leproso, Ele disse: “Quero, fica limpo”; assim também, quando uma alma é convertida, ocorre a mesma, distinta e especial manifestação da vontade divina: “Quero, seja convertido”. Tudo que pode ser chamado bom no homem, ou no universo, tem sua origem no “Eu quero” de Jeová.

Não estou negando o fato de que na conversão o homem também exerce a sua vontade. Em tudo que o homem sente, pensa e faz, ele necessariamente exercita seu querer. Tudo isso é verdade. O contrário é absurdo e irreal. No entanto, enquanto o admitimos, surge outra pergunta de grande interesse e implicação. Os movimentos da vontade humana em direção ao bem são efeitos da operação da vontade divina? O homem deseja a salvação porque ele mesmo se tornou propenso a isto ou porque Deus o dispôs? O homem se torna completamente desejoso pela salvação por uma atitude de sua própria vontade, ou por causa do acaso, ou por persua- são moral, ou por que agiu motivado por causas e influências exteriores à sua pessoa?

Respondo sem hesitação: o homem se torna desejoso porque uma vontade distinta e superior — ou seja, a vontade de Deus — entrou em contato com a vontade dele, alterando sua natureza e sua propensão. Esta nova propensão resulta de uma mudança produzida sobre a vontade do homem por Aquele que, entre todos os seres, tem o direito irrestrito de afirmar, em referência a todos os acontecimentos e mudanças: “Eu quero”. A vontade do homem seguiu os movimentos da vontade divina. Deus o tornou desejoso. A vontade de Deus é a primeira a agir, não a segunda. Mesmo uma vontade santificada e aperfeiçoada depende da vontade de Deus, para receber orientação; e, depois de regenerada, a vontade do homem ainda é uma seguidora, e não um guia. E, no que se refere à vontade de uma pessoa não-regenerada, muito mais necessário é que sua propensão tenha de ser primeiramente mudada. Como isto pode acontecer, se Deus não interpuser sua mão e seu poder?

Isto não significa tornar Deus o autor do pecado? Não. O fato de que a vontade de Deus originou tudo que é bom no homem não implica em que essa mesma vontade dá origem ao que é mau. A existência de um mundo santo e feliz prova que Deus o criou com suas próprias mãos. A existência de um mundo impuro e infeliz comprova que Deus permitiu que esse mundo caísse nesse estado; porém não comprova mais nada. As Escrituras nos dizem que Jesus foi “entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus” (At 2.23). A vontade de Deus estava ali. Ele permitiu que as obras das trevas se realizassem; porém, mais do que isso, a morte de Jesus foi o resultado do “determinado desígnio” de Deus. Isto demonstra que Deus foi o autor do pecado de Judas ou de Herodes? Se não fosse a eterna vontade de Deus, Jesus não teria sido entregue; mas isto prova que Deus compeliu Judas a trair, Herodes a desprezar e Pilatos a condenar o Senhor da Glória? Ainda, outra passagem bíblica afirma: “Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram” (At 4.27-28). É possível perverter esta passagem, a ponto de provar que ela não possui qualquer referência à predestinação? Ela significa que Deus foi o autor dos atos aos quais ela se refere? Deus é o autor do pecado, porque este relato afirma que judeus e gentios se ajuntaram “para fazerem tudo o que” a mão e o propósito divinos predeterminaram? Permitamos que os nossos oponentes expliquem esta passagem bíblica e digam-nos como ela pode se harmonizar com a teoria deles.

Talvez alguém argumente que Deus age através dos meios na transformação da vontade do homem. Pode ser dito: “Não há necessidade de que ocorra uma especial e direta intervenção da vontade e do poder de Deus. Ele estabeleceu os meios, deu-nos sua Palavra, proclamou seu evangelho; através desses meios, Ele realiza a mudança. A vontade de Deus não entra em direto contato com a nossa vontade. Ele permite que esses instrumentos realizem a mudança”. Bem, vejamos quanta verdade existe nessa afirmação. Creio que ninguém dirá que o evangelho é capaz de produzir a alteração na vontade do homem, enquanto este rejeita o evangelho. Nenhum remédio, ainda que seja o melhor, pode ser eficaz, se não for tomado. A vontade do homem rejeita o evangelho; opõe-se à verdade de Deus. Então, como a vontade torna-se capaz de recebê-la? Admitindo que, ao recebê-la, ocorre uma mudança, ainda surge uma pergunta: de que maneira a vontade do homem foi transformada, a ponto de se tornar disposta a receber a verdade de Deus? A pior característica de uma enfermidade é a determinação de não querer tomar o remédio. E como ela pode ser sobrepujada? Ora, alguém dirá, esta resistência será vencida com argumentos. Argumentos! O evangelho em si mesmo não é o grande argumento? No entanto, ele é rejeitado. Que argumentos você espera prevaleçam com um homem que rejeita o evangelho? Admitimos que existem outros argumentos, mas o homem se coloca em oposição a todos eles. Não existe qualquer argumento utilizado que o homem não odeie. Sua vontade resiste e rejeita qualquer argumento e motivo persuasivos. Como pode ser vencida esta resistência e expulsa esta oposição? De que maneira a propensão da vontade humana pode ser alterada, para aceitar aquilo que rejeitava? É evidente que isto ocorre somente quando a vontade humana entra em contato com uma vontade superior — uma vontade capaz de remover a resistência, uma vontade semelhante àquela que disse: “Haja luz; e houve luz”. A própria vontade tem de sofrer uma mudança, antes que possa escolher aquilo que rejeitava. E o que pode mudá-la, senão o dedo de Deus?

Se o homem rejeitasse o evangelho apenas porque não o entende corretamente, eu poderia deduzir que, se o evangelho lhe fosse plenamente esclarecido, cessaria a resistência. Mas não acredito que esta seja a situação do homem, pois isto nos levaria a concluir que o homem rejeita não a verdade, e sim apenas aquilo que não entende; se o que ele não entende for esclarecido, ele aceitará a verdade! O homem não regenerado, ao invés de ser inimigo da verdade, seria exatamente o oposto! Haveria tão pouca depravação no coração do homem, tão pouca perversidade em sua vontade e um tão instintivo amor à verdade e repúdio ao erro, que, se a verdade lhe fosse esclarecida, ele imediatamente a aceitaria! Todas as suas hesitações anteriores resultavam de erros que estavam mesclados à verdade apresentada! Poderíamos imaginar que a causa de tal hesitação era qualquer coisa, exceto a depravação. Talvez era a ignorância, mas não poderíamos chamá-la de inimizade à verdade, e sim inimizade ao erro. Pareceria que a principal característica do coração e da vontade do pecador não é a inimizade à verdade, e sim o ódio ao erro e o amor à verdade!

O coração do homem é inimigo de Deus — o Deus revelado no evangelho, o Deus da graça. Que verdade pode haver na afirmação de que toda a falta de confiança do pecador para com Deus e de que todas as suas trevas espirituais resultam do fato de que o homem não pode ver Deus como o Deus da graça? Asseguro que, com freqüência, esta é a situação do homem. Sei que, constantemente, um mau entendimento do misericordioso caráter de Deus, demonstrado e vindicado na cruz do Calvário, é a causa de trevas para uma alma ansiosa por Cristo; também reconheço que uma simples contemplação da abundante riqueza da graça de Deus repeliria tais nuvens de trevas. Mas isto é muito diferente de afirmar que tal contemplação, sem o poder renegerador do Espírito Santo sobre a alma do homem, transformaria a inimizade em amor e confiança. Pois sabemos que a vontade não-regenerada opõe-se ao evangelho; é inimiga de Deus e de sua verdade. Se a verdade for apresentada com muita clareza à vontade do homem e insistida sobre ela, logo despertará e suscitará o seu ódio. A proclamação da verdade, embora seja feita de maneira vigorosa e compreensível e seja a verdade sobre a graça de Deus, apenas deixará exasperado o homem não-convertido. Ele odeia o evangelho; quanto mais claramente o evangelho lhe for apresentado, tanto mais ele o odiará. O homem não-convertido odeia a Deus; quanto mais Deus se aproxima dele, quanto mais vividamente Deus é apresentado ao homem, tanto mais surge e cresce sua inimizade para com Ele. Com certeza, aquilo que estimula a inimizade não pode removê-la por si mesmo. Então, qual a utilidade dos instrumentos mais eficazes? A vontade humana precisa sofrer uma operação direta do Espírito de Deus: Aquele que fez a vontade do homem precisa refazê-la. Fazê-la foi uma obra de Deus; o refazê-la também é uma obra dEle. Fazer a vontade humana foi uma obra da onipotência divina; o refazê-la também precisa ser uma obra da Onipotência. De nenhuma outra maneira as propensões da vontade humana podem ser mu- dadas. A vontade de Deus precisa entrar em contato com a vontade do homem; então, a mudança se realiza. A vontade de Deus não tem de ser a primeira nessa mudança? A vontade do homem apenas seguirá; ela não pode guiar.

Esta é uma afirmativa muito difícil de ser compreendida? Em nossos dias, alguns querem que assim pensemos. Perguntemos em que consiste a sua dificuldade. Em afirmar que a vontade de Deus precede a vontade de homem? Em dizer que Deus deve ser o líder e o homem, o seguidor, em todas as coisas pequenas e grandes? Em afirmar que somos obrigados a encontrar na vontade de um soberano Jeová a origem de cada movimento do homem em direção ao bem?

Se esta doutrina é difícil de ser compreendida, isto deve ocorrer porque ela retira do homem qualquer fragmento de bondade ou qualquer inclinação para com Deus. Cremos que esta é a fonte secreta das queixas contra essa doutrina. Ela diminui e esvazia completamente o homem, tornando-o não apenas nada, e sim pior do que nada — um pecador perdido —, nada além de um pecador, que possui um coração repleto de inimizade contra Deus, um coração que se opõe a Ele como o Deus da justiça e, mais ainda, como o Deus da graça; um coração que possui uma inclinação tão distante da vontade de Deus e tão rebelde contra ela, que não tem a mínima propensão para aquilo que é bom, santo e espiritual. Isto o homem não pode tolerar.

Admita que o homem é totalmente indigno e desamparado; então, onde está a complexidade de entendimento dessa doutrina? É difícil entendermos que um Deus bendito e santo adianta-se à nossa vontade miserável e corrupta, para conduzi-la no caminho do bem? É difícil compreendermos que pessoas destituídas de tudo são devedoras a Deus por todas as coisas? Visto que todos os movimentos de nossa vontade dirigem-se para baixo, é difícil entendermos que a poderosa vontade de Deus deve intervir e erguer, de maneira onipotente, nossa vontade em direção às coisas elevadas e celestiais?

Se admitimos que a vontade de Deus regula os grandes movimentos do universo, temos de aceitar o fato de que ela também regula os pequenos movimentos. O mais insignificante movimento de minha vontade é regulado pela vontade de Deus. Nisto eu me regozijo. Se assim não fosse, quão miserável eu seria! Se me esquivo de tão ilimitado controle e orientação, é evidente que desprezo a idéia de estar completamente à disposição de Deus. Em parte, desejo estar à minha própria disposição. Tenho a ambição de regular os menores movimentos de minha vontade, enquanto entrego os maiores ao controle de Deus. Isto resulta em que desejo ser um deus para mim mesmo. Não gosto do pensamento de entregar a Deus toda a disposição de meu destino. Se Ele faz a sua própria vontade, tenho receio de que não terei oportunidade de fazer a minha própria. Além disso, concluímos que o Deus a cujo amor eu costumava me referir é um Deus a quem eu não posso implicitamente confiar a mim mesmo para a eternidade. Sim, esta é a verdade. A insatisfação do homem em referência à vontade de Deus surge do fato de que o homem suspeita do amor de Deus. No entanto, os homens de nossos dias, que negam a absoluta soberania de Deus, são os mesmos que professam regozijar-se no amor de Deus e falam sobre este amor como se em Deus não houvesse mais nada além de amor. Quanto mais eu compreendo o caráter de Deus, conforme revelado nas Escrituras, tanto mais percebo que Ele tem de ser soberano e tanto mais me regozijarei, em meu íntimo, com o fato de que Ele é soberano.

A soberana vontade determinou a época de meu nascimento, bem como o dia de minha morte. Não foi também essa vontade que certamente determinou o dia de minha conversão? Ou não serão apenas os tolos que afirmarão que Deus determinou o dia de nosso nascimento, bem como o de nossa conversão, mas deixou à nossa mercê determinar se nos converteríamos ou não? Se o dia de nossa conversão foi estabelecido, ele não pode ser determinado por nossa própria vontade. Deus determinou onde, quando e como nasceríamos; de modo semelhante, Ele determinou onde, quando e como seríamos nascidos de novo. Se isto é verdade, a vontade dEle tem de vir antes da nossa, em referência ao nosso crer. A vontade dEle vem antes da nossa, para que nos tornemos dispostos a crer. Se não fosse assim, jamais teríamos crido. Se a vontade do homem precede a de Deus em todas as coisas que se referem ao próprio homem, não posso compreender como qualquer dos planos de Deus pode ser levado a efeito. O homem teria sido deixado a administrar o mundo conforme ele quisesse. Deus não teria de fixar o tempo da conversão do homem, pois isto seria uma interferência na responsabilidade dele. Na realidade, Ele não teria de determinar que o homem seria convertido de maneira alguma, visto que isto transformaria seu próprio convite em uma simples zombaria e tornaria a responsabilidade do homem uma pretensão! Por meio de uma simples manifestação de poder, Deus pode trazer de volta ao seu curso uma estrela perdida e permanecer inalterado diante da interferência das leis da natureza. Mas, como afirmam eles, estender Deus a sua mão e resgatar a vontade humana de seu caminho errado, para trazê-la de volta ao caminho de santidade, é um exercício injustificável de seu poder e uma usurpação da liberdade do homem! Que mundo! Neste mundo o homem segue todo o seu próprio caminho, e Deus não tem a permissão de interferir, exceto naquilo que o homem chama de legítimo! Que mundo! Neste mundo tudo se volta à vontade do homem, todos os acontecimentos no mundo ou na igreja são regulados, moldados, impulsionados somente pela vontade do homem. A vontade de Deus é algo secundário; seu papel é apenas contemplar os acontecimentos e seguir os passos da vontade humana. Neste mundo o homem deseja, e Deus tem de dizer: Amém!

Em toda esta absoluta oposição à vontade de Deus, vemos a vontade própria dos últimos dias manifestando-se a si mesma. No princípio, o homem quis ser um deus e continua a lutar por isso nos últimos dias. Ele está decidido a fazer que sua vontade tome a precedência que pertence à vontade de Deus. No último anticristo esta vontade própria será sumariada e revelada. Ele é o rei que fará “de acordo com sua vontade”. E na atual controvérsia do “livre-arbítrio”, vemos demonstrado esse mesmo espírito. O Anticristo está nos falando, exortando-nos à independência orgulhosa. A vontade própria é a essência da religião anticristã. É a raiz de amargura que hoje brota em muitas igrejas. Ela não procede do alto, e sim de baixo; é terrena, animal e diabólica.

Assim diz o Senhor:
“Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia e me compadecerei de quem eu me compadecer” (Êx 33.19 – cf. Rm 9.8-24);
“Eu Sou, Eu somente, e mais nenhum deus além de mim; eu mato e eu faço viver; eu firo e eu saro; e não há quem possa livrar alguém da minha mão” (Dt 32.39);
“O que ele deitar abaixo não se reedificará; lança na prisão, e ninguém a pode abrir” (Jó 12.14);
“Segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35);
“Que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2 Tm 1.9).

Jesus - A Simples Verdade